Fábio, Pequena carta em sete partes. Leia com carinho, por favor. 1. a nota. No fundo eu nunca soube expressar bem, ao vivo, tudo aquilo que sinto. Da minha voz sem energia e esganiçada saem apenas alguns sussurros bestas; no máximo, um grito surdo que nada tem a ver com o turbilhão que guardo em mim. As coisas mais belas que já conseguir exprimir estão todas condensadas em letras, a maioria manuscrita, o que me dá um certo orgulho: tudo aquilo que sai do som e vira grafia dura para sempre. O problema é dar vida à letra, principalmente quando se trata da arial tamanho 12 com que eu escrevo esse e-mail. Uma mensagem eletrônica é uma maneira bastante fria de se falar sbre sentimentos, principalmente quando as intensidades se resumem a negrito, caps e itálico; respectivamente expressando, de acordo com meus próprios códigos, olhos nos olhos, grito e levantar de sobrancelhas. Espero que a frieza que engloba o formato com o qual resolvi falar com você não o leve a interpretações equivocadas - o que, de longe, é mais do que provável. Enfim: venho, com muito cuidado, quebrar o silêncio por mim mesma imposto. E só. 2. prelúdio. Classificar o beijo dado por você como "roubado" para mim é um eufemismo desncessário. Seu beijo foi "forçado", com muito orgulho e, pelo visto, sem resquício de arrependimento. Eu, da minha parte, me senti violentada. Um estrupo moral que de certa forma serviu de estopim para uma divertida crise sentimental. Relembrando os dez anos de morte do chato do Renato Russo, tenho andado distraída, impaciente e indecisa. Mas não apaixonada. De certo modo, o seu beijo me fez vê-lo como um homem - um lado seu que até então eu fingia não perceber. Provavelmente fui empurrada para dentro do universo dos seus sentimentos que me fazem, agora, reavaliar os meus, tendo o silêncio sido imposto justamente para completar esse período de reflexão. Até agora, nenhuma novidade. Vamos direto aos particulares. 3. os particulares. Eu desejei você. Àquela noite, enquanto todos dormiam, comecei a me tocar feito uma criança que não entende os calores que sente entre as coxas. O pior: sem culpa. Classifiquei o sentimento como mera curiosidade; afinal, de repente havia um homem, um homem que havia se declarado para mim tão abertamente, um homem que me havia prendido em um abraço sufocante e apaixonado. Você se tornou uma espécie de monstro. Um monstro que eu desejei contra todas as expectativas. Talvez eu seja atraída por uma certa brutalidade escondida atrás de todos os machos sensíveis que já conheci. Patético... nos outros dias, tentei convencer-me que a curiosidade nada mais era que mero fogo de palha, que passaria, como quase passou, com a primeira distração juvenil que atravessasse meu caminho. E como houveram distrações! Festas e festas, rapazes e moças novos, provas e originais risíveis, até certas viagens gastronômicas que me renderam algumas leves indisposições. Essas distrações, porém, de nada serviram para controlar meu desejo, que adquirira proporções cômicas. Embora emocionalmente você tenha me desestabilizado, meu lado racional continuava gritando vários argumentos contra qualquer possibilidade de (odeio esses termos) vivermos um grande amor. Por vários motivos. Primeiro, eu não o amo. Segundo, eu me acho jovem demais para você. Terceiro, creio que nos conhecemos minimamente ainda. Surgiu porém um argumento a favor da sua causa, um argumento solitário que me fez repensar e escrever esse e-mail: você, Fábio, reúne valores que eu não encontro em ninguém da minha idade. Aliás, em ninguém da sua idade. Á propósito: se me perguntar quais seriam esses tais valores, aparentemente tão subjetivos, fique sabendo que não terá resposta. Deve se tratar, enfim, de puro instinto. 4. a mentira (e como foi contada). No caminho para casa, tentei deixar bem claro que não queria nada com você. Ouvi uma resposta descomprometida; algo como "não é assim tão necessário desejar você". A resposta me deixaria aliviada se não fosse, tão claramente, uma mentira. Provavelmente meus esforços para fazê-lo ver que posso ser mimada, egoísta e desprezível de nada surtiram efeito; você, para prejuízo do seu ego, continuava apaixonado por mim. Triste, não? Eu realmente gostaria de estar no seu lugar: é sempre mais feliz aquele que ama. E de repente me vi sem saída, tentando escapar,evitando a todo custo um escândalo, dos seus lábios que tocavam meu pescoço, bochechas, nariz, das suas mãos que tentavam conhecer minhas curvas, de todo aquele homem que, com muito carinho, me violentava. Um golpe certeiro no meu orgulho. Felizmente cedi apenas um pouquinho; o suficiente para me perder na linha entre a mera masturbação e o desejo genuíno. Creio que o seu beijo,seja FORÇADO ou ROUBADO, não surtiria o mesmo efeito se fosse um beijo implorado. Um beijo passivo. Um beijo dominado. Não... a grande graça foi vê-lo imposto, de repente, como um homem, e não como o carinha que diz "não é assim tão necessário desejar você". Uma pequena grande mentira. E convenhamos, completamente desnecessária. 5. e então o nada tornou-se si mesmo de dentro pra fora. Ontem confesso que senti certas palpitações, provavelmente criadas por uma dita vontade, que me impediam de olhá-lo diretamente nos olhos e até mesmo de dirigir a palavra a você. Confesso que havia preparado o discurso que aqui escrevo, claro que com menos pompa, para segunda-feira, mas uma certa passividade em relação aos sentimentos quando estes são tão ambíguos quanto intensos me deixou paralisada. Provavelmente por conta da presença dos outros; afinal, ainda não cheguei ao ponto de confessar desejo algum em público. Só quando é possível, claro, colocar a culpa na bebida. Minha falta de coragem foi, contudo, superada na noite de ontem, provavelmente por conta de uma insônia que me abateu acompanhada por certos desejos impossíveis de serem satisfeitos apenas com o poder da imaginação. Precisava dizer que o desejo, Fábio. Que o quero como homem. Mas ainda não estou certa se o quero assim, no escuro das improbabilidades. Creio que, usando esses termos vagos, fica impossível distinguir qual é realmente o meu sentimento por você. É como um nada que se vira de dentro pra fora. Um nada que não tem nome. Não, nem eu mesma sei explicar. 6. querido. Não sei mais onde guardo minha pieguice. Agora quero, e muito, dormir com você. 7. futuro Never thinking about tomorrow. Um beijo (à sua escolha), Amanda
relendo essa carta as coisas ficaram mais claras. não se culpe pelo que você viveu: eu não te odeio, só estou triste, desapontada. queria muito que seu coração brilhasse como brilhou naqueles dias de outubro. no fundo, é tudo que eu sempre quis. é quase insuportável te perder.
quando puder, releia a carta. está tudo lá, a impaciência, o medo, meu jeito cínico de encarar você, que por um momento você pensou amar, mas que logo se tornou insuportável.
não seja duro demais consigo mesmo. sofra, mas tome cuidado para não virar hábito. tente não magoar ninguém, e nunca se esqueça de se perdoar. que nem naquela oração de São Francisco.
pra mim você será sempre o fábio. embora, ultimamente, só consiga te chamar de françois.
eu amo você. de verdade.
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---------- Forwarded message ----------
From: Amanda Meirinho
Date: 17/10/2006 11:52
Subject: particulares
To: fitak7
Caí de novo num ninho de desesperados, loucos por uma família, uma fiha que eles sempre sonharam, e nunca vão ter. Não tinha rede embaixo da corda bamba. Mas eu sobrevivi.
Eu não quero enlouquecer. Eu não vou enlouquecer. Mas não vou fugir. Na trincheira, a gente fica, e se concentra apenas em não morrer.
As pessoas com cartas ruins ganhavam, às vezes, por questão de sorte. Ou porque precisavam desesperadamente de ganhar das outras pessoas com cartas ruins, e empenhavam todo seu traquejo naquilo, até não mais poder.
Eu não sei se minhas cartas são ruins ou são boas. Só sei que estou no jogo.
Eu gosto de batata-frita.
Brinks. É que dessa vez é sério: joga no lixo o sorriso, que algumas pessoas tentam. E QUE MERDA. A gente não entra nessas de casamento pra ficar triste, não. É pra ser só felicidade. E de mãos dadas mesmo, ajudando um ao outro, mesmo estando na maior merda, já que, no final, um acaba tirando o outro do atoleiro; só que, se um solta a mão do outro, caem os dois. E cair não é nada legal.
Eu queria dizer que você é o melhor amigo, companheiro, parceiro sexual, confidente, um dos seres mais pacientes que já vi pela minha frente, depois, talvez, daquelas vacas na Índia. Eu queria que você não pensasse que me fez mal; relaxa, olha ao seu redor, e pronto. Eu queria dizer que te amo.
Tenho vontade de sacudir você, fazer você olhar para a gente, essa casa, essa quantidade absurda de sentimento-bom que solta do seu sorriso, e te tirar do atoleiro. Não vai resolver eu passar uma temporada longe da sua companhia, ou você recorrer à idiossincrazia. Eu tô tentando sair sozinha, numas de querer te provar que te mereço, sim, e vou conseguir. Mas você tem que entender que dois é sempre mais que um. Ainda mais, em se tratando das nossas pessoinhas.
Luz verde, apaga não. A gente ainda tem muito o que dar risada.
it's better to burn than to fade away
Neil Young & Crazy Horse, My My, Hey Hey (Out Of The Blue). Gravação de show no início da década de '80 (vide suspensórios).
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E de pensar que o Neil Young de 2008, bem, é o NEIL YOUNG DE 2008, interiorano, meio esquecido, fading away: uma lembrança.
Da série ria-por-último-uns-trinta-anos-depois.
mas eu gosto de ver o brel, suado, declamando o ne me quitte pas. gosto de quando o françois enlouquece e diz alguma coisa (dos outros) que me faz sorrir, abobalhada. ou de quando o laurent manda as rimas às favas e solta alguma obscenidade apaixonada. gosto e não me canso, porque é a poesia da gente, ouço com amor. mas talvez eu só goste porque é poesia de amor.
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tenho vergonha de dar livros de poesia para os amigos, mas, às vezes, me vejo sem opção. é como dar borges para um estudante de filosofia, chove no molhado. gostei muito mais de quando me deram um poema de presente, porque mesmo que fosse uma porcaria, eu não poderia dizer não. e, bem, na verdade, era bastante bom.

