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Os vizinhos se foram, e isso só não chega a ser bom porque virão outros. Era difícil ouvir quase todo sábado, o seu Vanderlei batia na filha pequena, gorda que nem aquela garota do Miss Sunshine, e a menina gritava. O irmão bateu nela uma vez. Todo mundo sabe que aquele garoto é viado, o pai saía e ele levava Gipsy Kings à sério. Pior: "Laaaaaaife is biguer...". Eram uma família de quatro, o pai tem uma namorada que veste 44. Olá, bom dia, como vai? Era o máximo. Eles foram embora numa daquelas picapes velhas, 92, aquela tralha toda, o filho viado, a namorada gortosa e o pai. Acho que a menina morava com a mãe.
O irmão virou para ela e disse "você vai sempre apanhar de tudo quanto é homem... e eu... eu sou um homem!"
Ele não precisava se afirmar desse jeito. A namorada do pai estava em casa, e a menina ficou chorando, meio histérica, meio tonta.
Um dia nós batemos na porta deles. A menina gritava contra o pai e o pai batia. Não que ela parecesse inocente, mas só dava pra entender o que o pai falava, e aquilo pertubava. Ressoava, bem alto, uma surra de bem-feito. Não deu. O filho mandou o Fábio não se meter na vida deles, e falou isso com tanta macheza que espantou. O pai não. Depois, ele bateu na nossa porta, e pediu desculpas.
É, nós entendemos. Criar crianças é difícil.
Mas como dói. Não é nem pelo galo na testa, as cicatrizes no braço, o cabelo caído, nem nada. A gente acha que as coisas são assim mesmo, e dizemos, social, é, nós entendemos, criar crianças é difícil, e no fundo pensamos, filha da puta, se ela pudesse bem que revidava, e enfiava o pé na sua cara, e chutava o seu abdômen, e mordia as suas costas, e te arrastava para o chão pelos cabelos, e saía de casa, chorando, descabelada, pra nunca mais voltar.
Quanta vergonha.
Os vizinhos se foram, e mesmo assim não tenho pena de ninguém.
Não que fosse impossível coletar todos os textos velhos, receitas médicas, e o cheirinho de leite que ficava na calcinha. Tudo é azedo que nem roupa mal lavada.
