Deito-me na cama e observo Aurélio desabotoar a calça com a calma de um cliente antigo; ele não sabe quantas vezes olho para o relógio de cabeceira. Se fosse um velocista, não me incomodaria tanto. Mas era Aurélio. Ele me chama de puta sem saber de nada, e sua ignorância me dá comida e roupa lavada. São duas e meia da tarde e o feijão já vai começar a ferver. Deveria ter tomado banho.
Ele encosta os dedos no tufo preto, e ao mordiscar minha orelha sussurra: “vagabunda”.
Se Aline estivesse aqui não seria assim. Aline era diferente. Uma santa.
Quando Aline se deitava ao meu lado, eram quatro seios, duas bocas, vinte dedos. O pó sobrava – nunca gostamos muito de beber. Eu não me incomodava se Aline não tomasse banho, pois tínhamos o mesmo gosto. Com Aline não precisava de espelho.
Foi quando ela se foi que fiquei triste pela primeira vez. Aí o Aurélio apareceu. Ele gosta de quando conto estórias das minhas amiguinhas. Ele gosta de me imaginar uma devassa. Mas não, ele não sabe de nada.
Guardei a xerox da identidade de Aline. Melhor; de Deusdete Lima Pereira. Até que não seria um nome feio para nossa filha.
“Vaca”...
Aurélio também não tomou banho. Seu suor de pêlos brancos gruda no meu peito. Tenho nojo.
Da primeira vez que nos beijamos eu não abri os lábios. Tenho medo do herpes. Só abri a boca para dizer ai quando já era tarde. No máximo fiquei com um roxo bem na altura da barriga; de resto, apenas umas mordidas nas costas e umas unhadas nos peitos.Aurélio é incapaz de me encostar um dedo, mas na cama vira bicho.
Puxou agora com mais força, enfiou o terceiro dedo.
“Puta”.
Sacudiu-me. Doeu.
“Me diz uma coisa, sua vagabunda...”
A voz era forte. Devo ter medo?
“Vixe, homem... que foi?”
“Me diz, hein, sua piranha... quem é essa tal de Deusdete que você leva na carteira hein?”
Gelei.
“Vai, me diz!”
Sorri. Essa estória eu não ia contar.
“Conta, vagabunda!”
Enchi a boca.
“Não.”
Quando Aurélio levantou a mão, disse:
“Amor, eu tô grávida”.
Nossa filha foi batizada de Maria de Fátima, em homenagem à mãe de Aurélio - eu acho. E não se fala mais nisso.
°°
Sentia ainda o balanço das ondas em minha cintura de menina quando ouvi o grito. Vinha do banheiro. Uma coisa imensa, maior do que as mãos minha e da Carolina espalmadas, voou para cima de nós. Suas asas eram pretas, e só isso foi o suficente para nos assustar. Saímos correndo para fora da casa, rumo aos jardins, e gritamos "vô Aníbal! vô Aníbal!" como diabo que foge de cruz. Vô ouviu nosso relato, e pegou um pedaço de papelão que eu e o Ivan usávamos para montar nossos esquemas não muito práticos para a construção de um veículo motorizado usando peças sobressalentes de bicicletas, cortadores de grama, camiões, etc. Bom, o vovô pegou esse pedaço de papelão, desceu as escadas rumo ao primeiro andar, que era onde os quartos ficavam, e quando voltou, mostrou uma massa preta, com as asas de papel fino grudadas em uma gosma verde.
Eu e Carolina sabíamos que a Bruxa havia saído do baú. Investigando melhor os lençóis, encontramos uma mancha amarelada, muito parecida com sangue coagulado, no meio de um deles. Sentimos nojo: como vovó não poderia nunca ter lavado aquele lençol? Guardamos tudo rapidamente e tratamos de ver o sol se pôr, enquanto vovó servia bombinhas de chocolate. Carolina disse que o demônio estava na casa - a avó materna dela era muito superticiosa - mas eu neguei. De mônio burro esse, de se esconder dentro de baú... para mim, era só uma Bruxa que estava tentando nos assustar. Ivan, que era muito pequeno nessa época, insistiu em saber da estória, mas eu e Carolina o ignoramos.
De noite, eu fiquel lendo um daqueles volumes intermináveis do Sítio do pica-Pau Amarelo, a Carolina ficou brincando com suas bonecas, e o Ivan, pobrezinho, o Ivan foi posto pra dormir em cima do baú. Mas não aconteceu nada.
Dois meses depois eu passei a ver dragões desenhados no armário, sombras se escondendo atrás das paredes, aparições santas saindo dos móbiles do quarto, e, o mais interessante, encontrei um cordão de ouro, com uma serpente entalhada, dentro de uma caixa de sapatos. Que merda: havia me tornado uma criança superticiosa.
Hoje eu gostaria de acreditar que a boboleta preta era apenas uma borboleta, mas não consigo. Acho que é preciso ter um filho para se deixar de crer totalmente em fadas. Se é que vale a pena deixar de acreditar nessas coisas. Eu creio que não.
