/histrionissima histrionissima histrionissima

Hoje fui atropelada por uma bicicleta e descobri que não sou velha nem tenho labirintite. Com um pezinho pra fora do ônibus, na faixa seletiva onde, duh, só passam ônibus, fui sumariamente atravessada por uma bicicleta de corrida, pilotada por um garotão com só o Tico no cérebro, que deve ter tirado o dia para atropelar velhinhas em faixas seletivas. Entendo seu desejo: já atropelei uma velha, também de bicicleta, e o melhor, na descida de uma ladeira. Foi a coisa mais linda: tchoft no chão, gritaria, um ensaio de tabefe, papai e mamãe aparecendo, bate-boca, etc. Mas, na hora agá, me lembrei que não sou velha, e que não tenho labirintite, logo ignorei o guidão no pâncreas rápido o suficente para conseguir me manter em pé e fingir que não foi nada.


Quando cheguei ao trabalho, minha barriga estava sangrando. Morrerei em menos de 48 hs de hemorragia interna.

Mas a minha lembrança mais forte não é da bicicleta, nem da velha, nem da labirintite. Ando acompanhando o caso do ganhador da Mega Sena assassinado em um bar, chamando a mulé dele de vaca todo dia e elogiando o trabalho dos advogados para embarangar a figura da viúva inconsolável. A filha desse cara morava em uma "rua descalça em um condomínio em Maricá". Ora essa, minha avó morava nesse condomínio. Eu conheço ele melhor do que meus pêlos pubianos. A vovó mudou para lá numa fase em que queria se afastar do mundo, e viveu lá até a morte do vovô, ou seja, durante uns oito anos, mas isso não interessa. O que interessa é que eu sei onde fica aquela merda, e já andei cada cantinho de terra por lá. A filha do finado morava em uma casa que fica em um extremo desse condmínio, perto da área da mata, onde devem colocar auto-falantes com o som de micos no cio, porque eu juro que aquele "iiihnn-ghiuiiin" não pode ser o som de macacos ordinários. Essa zona é uma das mais valorizadas do condomínio, apesar de não ser calçada. Acho que não colocaram asfalto por lá porque barro é, convenhamos, bem mais roots. Já atolei um carro por lá, e, ora essa, qual a graça de ir para o interior se você não pode atolar um carro? Ah sim, esquei de avisar: não sei dirigir, e o carro era um camião velho que o vovô usava quando tinha uma loja de materiais de construção com o tio.

Ok, foda-se o camião, o barro, e a filha do milionário. Só quero dizer que ela não era deixada tão à míngua assim, porque se ela não morava numa mansão, pelo menos habitava perto das mansões do condomínio, e pelos meus conhecimentos topográficos da região, creio que passava um córrego de águas cristalinas (demodè) dentro de sua propriedade. Enfim, se pintam ela de coitada, é porque ela, pelo que eu me lembre, é preta, e a loira tem cara de piranha suburbana. A mídia adora falar mal da segunda e proteger a primeira, segundo o Ali Kamel. E eu, inclusive, também fui mais com a cara da filha do que com a da viúva, lembrando que as duas moram em Maricá, que é, via de regra, um belo cocozão.

Mas, que merda, ainda não consegui falar a razão de ter me lembrado da filha do finado. É que meus pais mantiveram, durante uns cinco anos, uma casa no mesmo condomínio da vovó, para facilitar as visitas e não incomodar a véia, que mesmo com dois quartos de hóspedes ficava toda estressada com a chegada dos filhos. Um dia, eu e o Ivan decidimos ir de bicicleta para a casa da vovó, que ficava a uns 2 km da nossa, enquanto meus pais iam de carro uma hora depois (não me pergunte porque eles queriam uma hora à sós, provavelmente deve ser pra brincar de kart no chão da sala). Bom, meu pai deve ser um velocista, porque uns 15 minutos depois eles já estavam descendo a rua em direção à casa da véia. Foi quando eles viram minha bicicleta no chão, eu com os olhos baixos, e uma jararaca gritando na minha cara.

Poisé, uma mão lava a outra: atropele que serás atropelado. Tomara que o desgraçado que estraçalhou meu pâncreas seja cortado ao meio por um camião do Beto Carreiro World dirigido pela velha que eu atropelei. É um pedido decente para uma moribunda, convenhamos.




O teclado daqui está tão sujo que me pergunto, não o tempo todo porque hipocondria nunca foi meu forte, qual o tipo de infecção que posso pegar no contato dos dedos com o cascão. Minha vontade era cuspir e delicadamente passar o dedo mindinho, olha só que higiênico, tecla por tecla, com toda aquela paciência adquirida nas aulas de religião no primário. Se bem que duvido que meu dedidnho mindinho passe por entre as teclas - estou mais gostosa do que nunca, saltando do 38 pro 40, 39 com boa vontade, em pouquíssimos meses. Merda, perdi roupa. Meu único consolo é que, quando tiver minha primeira crise de anorexia, eu vou me sentir usando as roupas velhas como se fossem roupas novas. Vantagens: não vou me sentir mais culpada por fumar, já que o cigarro emagrece até as mais chubbies. Desvantagens: vou perder as roupas que comprei desde que engordei. Enfim, uma merda, eu odeio perder dinheiro. Acho que se minha digestão fosse tão rápida quanto a do papai eu dificelmente ganharia peso. Vou consultar qual a marca do laxante que ele toma (só pode ser laxante).

Os meus peitos estão estourando minhas blusinhas tamanho PP. Acho que um bronzeado na área dos mamilos não faria mal a ninguém.




capa alternativa:






miau, miau...




Pra quem viu a chuva caindo como gelo seco em cima das montanhas, e pra quem desconfiava que os pássaros sumiam quando vão para trás dos prédios, assim como quem ainda duvida da existência das coisas quando elas não estão lá, ou mesmo quem nunca questinou a virgindade da própria mãe (biológica),

não há lado escuro na lua.


(as a matter of fact, it's all dark)


-


O sinal fecha enquanto meus olhos piscam, e quando meus olhos fecham de vez ele só pisca.




1. a propaganda é maluca
2. o Lee Perry é foda
3. guinness é boa
4. estou com sono
5. listas sempre devem terminar no terceiro item
6. etc.








Estão prendendo todos os traficantes de sintéticas do Rio de Janeiro, e se não me engano hoje ou ontem de manhã (porque eu não leio jornal, então nunca sei direito essa coisa de data) uma patricinha super ameaçadora rodou, junto com o namorado, em Niterói. Os traficantes de sintéticas são bandidos de alta periculosidade; logo, crianças, não se iludam só porque eles usam roupas parecidas com as suas e assim como vocês dispensam acessórios fashion como meias na cabeça. Um dia, numa festa, eles podem vir com esse papo de que têm um remédio pá-pum contra dor de cabeça, e você, do jeito que tem cara de otário, vai acabar caindo na deles, e depois de ficar bem viciadão pode até começar a usar erva e matar seus pais, que nem a Suzanne Von Richtofen. O mais sinistro é que, via de regra, eles não são filhos de pobre e nem sabem quais são os procedimentos básicos para a montagem de coquetel Molotov, mas não fiquem surpresos se a Veja ou qualquer outra fonte da verdade universal lhes informarem que eles põe fogo em ônibus, atiram em policial, e estão super conectados com o Evo Moralez, o Hugo Chávez e o Ronald Mc Donald para destruirem suas cabecinhas.

Logo, se conhecerem um, denunciem já para a dp mais próxima ou contem tudo, tudinho, pros pais deles, a fim de que tomem o quanto antes providências contra esse mal oculto. Sua contribuição pode salvar milhares de vidas.




Quando participou do encontro de poesia moderna em dezembro de algum ano passado, Carolina sentou-se no meio da roda de almofadas (cinzas) e, dando uma bicada no copo d'água, levantou rápida a espinha dorsal e começou.

"O carro parado no meio de outros carros parados
Com um casal, ele feio e ela dos olhos cansados
No Mc Donald's uma promoção no nome de Jean Marais
(pausa)"

Não terminou. Dois rapazes, um vesgo e o outro com ar de fastio, achegaram-se ce Carolina e exigiram que calasse a boca. O marido de Carolina não protestou, apenas levou a esposa para fora do recinto onde, com a voz grave, disse:

"Sei de tudo e a perdôo. Ele, que suma. Mas você fica comigo."

Carolina não sabia o que pensar, nem do marido, nem do amante. Aliás, achava os dois bons maridos, e não enganava nem um nem outro pois ao ser ver era apenas uma soma de afetos, sendo que quando um estava longe, ela se achegava mais do outro, que a considerava uma boa namoradinha, e até um dia lhe chamara para viver consigo, com um abraço donde só ela sentia o sopro.

"Vem, Carolina, vem."

O outro nunca ficara sabendo do marido de Carolina. Aliás, de outro ele nada tinha, pois só se é amante quando se é sabido que a mulher já está com terceiros comprometida.

"Carolina, vem comigo, vem."

Ao voltar de viagem, embrulhado dos pés a cabeça e da cabeça aos pés em notas de cem, o marido de Carolina achou por bem cumprir os desígnios do matrimônio, e levado por algum ímpeto tardio, segurou seu punho com força tremenda para um homem já adentrado nos sessenta anos. Carolina sentiu que se chorasse talvez ele se comovesse, e talvez se esperneasse ele até pudesse escutá-la, mas aquela visão pela janela, com aqueles olhos doídos vistos por Carolina junto com sua imagem refletida, aquele rapaz que não batia no vidro nem nada, que apenas a observava partir, aquela aparição fez Carolina se acalmar e entrar, solícita, no carro novo do marido.

Não houve despedidas nem sirene de polícia, mas, de qualquer modo, Carolina não terminou sua poesia. Dois rapazes vestidos de preto largaram suas xícaras de chá verde em um canto, e com indisfarçável cinismo pediram para que Carolina se calasse, pois sua estória não se encaixava nos parâmetros estabelecidos pelo concurso. Carolina balançou a cabeça, como se quisesse se fazer de desentendida, mas seu marido tão pronto a viu ensimesmada levantou-se da cadeira ao fundo da sala e lhe deu um beijo sereno no canto dos lábios, não sem antes esconder os dedos pequenos na moça na palma de sua mão, e ajudá-la a se levantar das almofadas (cinzas). Carolina, já convencida que sua poesia era mesmo muito ruim, se deixou ser levada para fora da sala, pé ante pé, onde, no corredor iluminado por uma ampla janela sem persianas, e deu um abraço sereno, quase infantil, um abraço que fez seu marido sussurrar:

"Vem comigo, Carolina, vem."

Dois rapazes não muito feios gritaram o calaboca alto o suficiente para Carolina se levantar das almofadas (cinzas) e ir, à pé, para casa, onde jogou com raiva todos os papéis de rascunho em uma lata de lixo. Na janela um par de olhos se misturavam com o rosto de Carolina e doíam.

Acordou feliz ao perceber que não se chamava Carolina e nem participara, em algum ano passado, de um concurso de poesias.