A Virginia me apresentou essa ontem. Não sei se vou baixar. Gostei da voz do rapaz, e só.
Mas o clipe é bom demais para não publicar.
Diva Lady, do Divine Comedy.
pass the dutchie não significa absolutamente nada, ponho minha mão no fogo.
Da primeira vez em que vi ese vídeo gostei tanto que até me esqueci o nome da banda. Mas, taí: Musical Youth, cantando uma corruptela de algo como "passa o bagulho", que do jeito que está, parece mais "passa o balulio".
Estou ouvindo muito dub e reggae, e digo que não foi fácil vencer o preconceito. Começou com uma coisa engraçada que foi prestar atenção nas letras, e depois no baixo, e só aí começar a gostar de verdade, sem precisar de subtefúrgios ilícitos para entendê-lo. O chato é que me deu uma saudade da Interferência, e dos tempos em que eu perdi meu segundo período participando de quase todos os programas por lá, e, de quebra, transformando parte do meu cérebro em papinha de bebê, não com erva, e sim com música ruim mesmo. Se eu ainda tivesse saco para ir pra lá ouvir as besteiras que os meninos falavam no ar, pediria para investirem mais nesse som que vem de dentro, com letras que mais parecem salmos cantados do que outra coisa.
Acho que vou esperar meu cabelo crescer e fazer dreads. Leão de Judá, uau.
Quem quiser comentar, que não se sinta intimidado, pois o controle aqui é fraco. Permito quase tudo, menos xingar a mãe e imbecilidades, mas posso liberá-las dependendo do tom da idiotice. Afinal, é sempre saudável falar mal de alguém antes e durante o café-da-manhã.
Se mesmo assim o leitor se sentir intimidado, meu endereço de e-mail aparece bastante destacado no meu profile. Sinta-se livre para dizer sua opinião, seja lá qual for, desde que seja de modo que me faça entendê-la, senão simplesmente a deixarei de lado e irei para a cozinha, porque lá que é lugar de mulher casada.
Anônimos serão sempre criticados e impiedosamente rechaçados, pois essa é uma casa de respeito e só aceito quem por bem dá a cara à tapa. Este é um blog bastante lido, pelo que pude notar pelo número visitas no meu perfil e a contagem absurda de vezes que a canção do Cidadão Instigado foi tocada nessa página (quando a postei, contava com apenas três ouvintes), mas não muito comentado, situação que me deixa um tanto desconfortável, pois creio que nuvem branca e pinguim não são exatamente símbolos de uma fera com garras e dentes afiados.
Desde já informo que comentários serão sempre respondidos, por mais irrespondíveis que possam parecer, ou na página indicada pelo comentador, ou no endereço de e-mail, ou na própria página do blógue, se for mais um anônimo cuti-cuti com crise de identidade. Não gosto de esquizofrênicos, então não venham fazer propaganda das tortas da vovó por aqui pois simplesmente não gosto de tortas, nem de vovó, nem de propaganda, e provavelmente não gosto, por tabela, de você.
Também não gosto de niilistas, principalmente os miguxos, mas mantive meu desapreço por estes em segredo pois queria continuar tendo assunto para comentar durante o café-da-manhã com o Fábio. Agora arranjamos outra corrente filosófica para dissertar a respeito, que prefiro não elucidar a fim de não perder os comentadores bloguísticos desta. Quando for a hora aprazível, a revelaremos. Ou simplesmente me esquecerei de tê-la mencionado e irei matar o tempo lendo Hq's com pouca disciplina.
Grosserias de minha parte tendem a continuar para a diversão dos leitores-não-comentadores, mas sempre mantendo um certo nível de espirituosidade para evitar que caiam na pura e simples estupidez, bastante comum a alguns colegas meus. Tentarei ser o mais clara o possível, sempre que possível, claro, e afastarei o Gilberto Gil que existe dentro de cada um de nós (mão no peito) com o afinco de um pinguim à cata de peixes em Cubatão.
Peço desculpas se menosprezei alguns comentadores, mas certos problemas pessoais, envolvendo situações de estresse academicista e lavagens de roupa suja, somado ao afastamento de uma atividade que para mim há tempos se mostrava cronicamente infrutífera, me levaram a vestir um pesado manto de mau-humor na última semana. Creio que não é a hora, contudo, para cair em tristeza. Há muitos outros caminhos possíveis, como em breve poderei atestar.
Então, é isso. Coloquei quadros dos vitrais de Chagall nas paredes e mudei os retratos do Kant de lugar. Tenho uma pilha de livros ruins para despachar (gong-show) e não consigo deixar de me preocupar em como ficará minha situação profissional para 2007, já que terei que estudar pela manhã e não terei horários disponíveis na função que ocupo na editora pela tarde. Ai, ai...

Da primeira vez que realmente a vi, não era muito menor do que sou agora, mas ainda não havia menstruado e tinha o cabelo até os ombros. Passei a prendê-lo em coque, e aos treze, usava-o curto, à base de gel e escovas a fim de esconder os cachos. Aos quinze, comecei a perceber que minha cintura era um pouco maior que a sua, e que coxas grossas não combinam com divas do cinema, mas não dei bola. Simplesmente usava roupas como a dela, e sempre a observava, como quem vê de longe uma mulher bonita mas não tem coragem de se aproximar.
Hoje eu olho para Audrey e não a acho mais assim tão divina. Gostei de desenhá-la no paint brush, assim como quem gosta de fazer exercícios para não perder a segurança no traço. Mas nem de longe a observo com a devoção dos meus treze, quatorze anos.
Com a idade percebi que Lisa Minelli era nariguda e Rita Hayworth mexicana. Que Audrey era ossuda e Bardot quase desdentada. Bettie Davies estrábica e Garbo pouco dotada.
Fascinantes? Depende do jogo de câmeras.
Veronika Voss que o diga...
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Esse foi meu primeiro natal dividido em duas casas, e sabem o que eu ganhei tanto da minha mãe quanto da minha sogra? Um livro de receitas! Ah-há.
Claro que essas datas também fazem tanto sentido para mim quanto para o Millos. Nosso Natal é quase a mesma coisa, só que ganhamos mais presentes. Para ser mais exata, oito. Sim, oito (8). Que por sinal é meu número favorito. Como é muito presente de uma hora só, papai e mamãe davam sempre coisinhas bobas como um peão ou um docinho, para no final ganhar a bicicleta, o piano, o livro de Mitos e Lendas gregos com capa de tecido e quase um metro de altura, etc. Isso até eu fazer dez anos; aí eles passaram a só me dar dinheiro. Esse negócio de presente só voltou com toda força esse ano.
Minha mãe quase matou o Fábio de tanto comer, além de ter alugado o ouvido dele contando histórias da sua infância e sobre como embebedar um peru, e ela, a despeito de não ser uma perua e nem se parecer com uma, nem metaforicamente, estava mais pra lá do que pra cá. Meu pai e ela voltaram, o que é muito bom, já que o velho está de bom-humor, e meu irmão, que deixou de ser virgem esse ano e me deu um livro do Truffaut, finalmente decidiu o que vai prestar para o vestibular: História, na UFF. Uma editora e um professor... cara, se meu pai morrer minha mãe vai ter uma velhice um tanto sacrificada em termos financeiros, convenhamos.
Na casa da sogra apareceu uma lagarta na minha comida. Sim, minha sogra não lavou a brócolis direito. Ainda bem que foi no meu prato, porque não se pode falar nem do bicho-que-vira-borboleta para ela que a coitada corre para cima do sofá da sala e começa a gritar desesperada. A bicha tinha uns 5 cm, e foi cozinhada viva junto com o bacalhau, que por sinal não é kosher, mas isso se abstrai. O engraçado é que gafanhotos são kosher, mas lagartas e outras pragas agrícolas são terefá... bom, o fato é que o segundo jantar foi interrompido pelo meio, enquanto eu e Fábio tentávamos acalmá-la, e acabamos na virada para o dia 25 vendo um desenho animado do Adam Sandler muito, muito bom, no Adult Swim. O nome é algo como Oito Noites de Locura, mas não pensem que é pornô; é um conto de Chanunkah bastante fofo. No café-da-manhã, o Fábio falou para a mãe dele que nós tínhamos visto um filme que tinha um cara muito do malvado, e que ele era judeu, o que ofendeu a mãe dele, pois ela pensou que ele estava me desrespeitando. Wathever. Depois, fomos para uma casa da Dominique, que é a autora daquelas fotografias de fuscas que ficam perto da rede, e eu montei uma casinha vermelha de Lego com o Fábio enquanto a mãe dela falava mal das sobrinhas do namorado da Domi. Ah sim, e o namorado da mãe da Domi é racista. Ainda bem que ele não ficou sabendo que aqui o sangue sefaradí corre solto.
Não fui na Loud! pois a ceia me deixou cansada de um jeito que eu não me sentia há muitos e muitos anos, desde os tempos em que eu participava forçada de campeonatos de natação infantil. Fiquei meio deprimida, pois achei que no fundo todo mundo só estava lá para comer, e que não estavam nem aí pra celebração do oitavo dia do Chanukah, mas eu superei essa crise emo quando o Fábio me leu o último conto de Sagarana. A propósito, eu dei para ele um São Cristóvão de resina e a edição comemorativa de Grande Sertão: Veredas, que eu nem consegui com um desconto de 50% porque eu nem trabalho na Nova Fronteira (pigarreando) e ele me deu uma edição linda de Contos de Fadas comentados, da Zahar, e uma blusa chinesa de seda que simplesmente me deixou a criatura mais elegante de todo o corredor do sétimo andar do nosso prédio.
Estou lendo as mensagens de vocês até o final, e isso me deixa tranqüila. Amo muito todos vocês. Amo mesmo, mesmo que vocês não tenham percebido. Vocês são minha terceira família.
Beijos,
Amanda
Experimente passar pelo ícone "next blog" e verá que poucos são os que se aventuram ao menos a mudar o template. Acomodados nas linhas retas e felizes como o único modo que seus textinhos mal-feitos precisam para ser apresentados. Pior que isso é a quantidade absurda de blógues onde mamães colocam as fotos de seus filhinhos, todos gordos, todos loirinhos, ou aquelas páginas feitas por sino-americanas de 14 anos que escutam emo: primor gráfico desperdiçado.
O blógue é ARENA, santo grito! Pra quê ter um blógue se você não sabe que não se separa sujeito do predicado com vírgula? Pra quê abusar dessa mídia se o videogame é muito mais legal? Pra quê deixar de crer na sua mediocridade, ora essa? Uma mídia livre, é isso? Só se estiver mesmo condenada à liberdade. Como diria Jean-Paul Sartre, grandes merdas.
compra pronto no Zona Sul, reidrata, mete o vinagre balsâmico, o azeite e o sal, vai ver tevê e se viciar na internet, volta, coloca na carne, espera, e aí assa.
Ao se mudarem, a tal mocinha entrou para uma associação de moças, muito puritana, onde rapidamente ela se tornou a queridinha do grupo provavelmente por ser a mais nova. A chefa da associação protegia a mocinha e lhe dava várias dicas, sempre seguidas de um leve olhar de desprezo, provavelmente por saber a guria era tão medíocre quanto as outras. Uma tarde destas, depois de uma reunião, a mocinha estava em casa, fechada no único quarto, que dava para um pequeno jardim mal-cuidado com a grama seca, na casa miúda onde ela e o marido moravam. Ela vê televisão e come um desses doces que as esposinhas de início da carreira ingerem acreditando que, no fundo, gordura é coisa bonita, e finge não escutar um barulho bem alto vindo dos fundos, onde moravam seus vizinhos. Mesmo tendo certeza que o barulho saía de sua cozinha, e se estendia da sala de jantar até o banheiro, que por sinal era colado com o quarto onde ela estava, ela se força para não ouví-lo, e, trancada com sua colcha branca, toma dois valium e cai no sono. Mas na cabeça dela dá para ver a cena toda: a garota gritando contra o namorado, ele batendo nela, os dois com cabelos bem escuros, roupas pretas e maquiagem borrada, os dois berrando naquela casa de subúrbio feita para receber visitas e criar crianças mimadas, os dos quebrando as coisas na cozinha, sangrando no banheiro do tapete azul, rolando na mesa de jantar redonda, para quatro pesoas, com renda por cima.
Inexplicavelmente a mocinha só foi despertar com a campainha, e andando ainda meio bamba, com sua camisola comprida e florida com babado na gola, recebe o seu amigo, que convida ela e seu marido para uma festa. Ela aceita o convite, mas antes se veste rapidamente pois quer dar uma conferida na nova sala de reuniões da associação de moças da qual ela faz parte, e se força, mais uma vez, a crer que na sua casa não havia mais ninguém além dela e somente ela naquela tarde ensolarada.
Um dia depois a polícia aparece, e a moça, ainda de camisola, atende a campainha. A políca não explica nada, apenas algema seu marido e o leva apra a delegacia. As policiais e a delegada, todas jovens, negras e atléticas, parecem ter esquecido as luvas, e chegam nas garrafas postas na cozinha, como se fossem uma barricada, e mexem nelas com os dedos nus, ao que a mocinha diz "ei, foi a menina quem pôs essas garrafas, tenha mais cuidado". Ao chegarem no banheiro en contrarem uma mancha de sangue, ainda vermelha, no tapete azul-claro ao lado do sanitário, ela diz "esse é o sangue dela, ela disse que estava mensturada". O marido volta então da delegacia, ainda pertubado, mas se percebe que foi liberado por possuir um álibi. Na sala da frente, perto do jogo de jantar, está a chefe da associação de moças, com seu cabelo escuro amarrado no alto, e uma garota muito bonita, que diz, " Ela vivia invadindo a casa dos outros, não roubava nada, só invadia, e ficava no cozinha. Outro dia ela assaltou a geladeira e saiu puxada pelos cabelos pela mão do meu marido. Coitadinha.", e de repente me veio a certeza que a menina que havia sido assassinada na cozinha era, enfim, filha da chefe da associação de moças. Na sala de jantar as policias perguntavam para meu marido se a figura já havia aparecido na porta de casa, e ele dizia que sim, que ela "já havia aparecido oferecendo sexo, como se estivesse drogada ou precisando de dinheiro", e eu vi que havia uma viciada em heróina no nosso bairro perfeitinho. "Qual o nome dela?", perguntei à outra moça que estava na saleta, e ela respondeu "Irene".
Acabamos que eu e meu marido fomos à tal festa ao qual meu amigo havia nos convidado. E o rapaz se aproximou de mim e perguntou se estava tudo bem, já que ele soube do crime bárbaro que tinha se dado na minha casa. Eu disse que estava tanqüilo, mas não entendia como os cadáveres não estavam por lá. O meu amigo se aproximou e com um sorriso dos mais doces disse "É que eles não querem saber da verdade, não, é queridinha? Eu sodomizei os dois, aquela putinha e o namorado dela, e fiz o favor de sumir com os corpos para você."
O nojo foi tão grande que me obriguei a acordar. Fim do pesadelo policial, começo das sinapses.
O Pedro convidou eu o Fábio para comemorarmos seu aniversário na Loud! esse sábado, dia 23, mas com aquele sorriso doce eu nunca desconfiaria que ele seria capaz de violar corpos ainda frescos. Irene é o nome da esposa de um tio do Fábio, assassinada brutalmente pelo ex-marido em um bar, devido a ciúmes; o dito-cujo terminou linchado no próprio estabelecimento pelos amigos da recém-falecida, estória dessas dignas do Meia-Hora, da qual eu nunca me inteiraria se a menção do tal primeiro nome não fosse tão clara em meio ao pesadelo. Na noite anterior eu havia discutido da hipocrisia que é fazer parte de uma vida suburbana cheia de vizinhas fofoqueiras, que são capazes de virar a cara para você na rua se você começar a sair desacompanhada, depois das dez da noite, na rua, mas não sei se isso vem ao caso. O resto é puro delírio mesmo.
E os urubus só pensam em te comeeeeer!
Toudas as vacas estão velhas, toooodas as vacas estão quase lá Toudas as vacas estão loucas, e abatidas no seu leito de morte Toudas as vacas estão velhas, toooodas as vacas estão quase lá Toudas as vacas estão loucas, e abatidas no seu leito de morte
Carne
Sangue
Ossos
Destroços
uma-parte-já-se-foi-o-resto-ainda-está
De fato, mas não por muito tempo
Pois ja é tarde, hoho, pois já é tarde
E os urubus só pensam em te comeeeeer!... E os urubus só pensam em te comeeeeer!... E os urubus só pensam em te comeeeeer!...
Toudas as vacas estão velhas, toooodas as vacas estão quase lá Toudas as vacas estão loucas, e abatidas no seu leito de morte Toudas as vacas estão velhas, toooodas as vacas estão quase lá Toudas as vacas estão loucas, e abatidas no seu leito de morte
Mas os anos se passaram, e enquanto a barriga de Castora só fazia inchar, o corpo de Lourdinha aos poucos se arrebitava. Por sorte Nestor, preocupado que estava com a barriga da mulher, não tinha tempo para admirar a cintura fina, os quadris macios, os seios rijos e altos, a pele branca, os olhos fundos, os lábios úmidos, as mãos compridas, as bochechas rosadas, a fronte alta, as coxas grossas, o nariz reto, e aquele tufo de pêlos grossos e escuros que ela deixava transparecer sempre que saía do primeiro banho frio. Não; Nestor andava mais é celoso da saúde de Castora e do seu pequeno Menino, não tendo tempo para contar ao açougueiro, padeiro, peixeiro, e o diabo que o carregue das belezas da compleição de nhazinha. Na feira, contudo, só se sabia falar de como Lourdinha crescera e estava bonita, ressaltando que a dona daquele belo tufo a proteger as carnes não poderia ser assim tão recatada, correndo as más-línguas que havia mais do que reza nas visitas do cura, com ou sem freira ou coroinha. Lourdinha, ciente dos murmúrios e serenatas que ouvia da janela de sua casa, escolheu o horário mais apropriado para a missa, e às cinco da manhã se via um vulto negro, acompanhado por uma mulher com a barriga inchada, caminhando a passos rápidos, mas pouco barulhentos, rumo à igreja. O tocador de órgão foi o primeiro a decidir se apresentar naquela missa quase-que-particular, seguido logo dos moços que estudavam na faculdade vizinha e os filhos de fazendeiros. Claro que logo madrugaram os próprios fazendeiros, advogados e profissionais liberais, seguidos de suas esposas, pois nem só de homens solteiros vive uma cidade interiorana, num surto de beatidão que caso Lourdinha fosse, enfim, uma mulher feia, ninguém poderia desconfiar de sua santidade redentora. E nhazinha levantava o véu para receber a hóstia, ciente que estava a ser observada. Lourdinha sangrava há poucos dias quando, por meio do cura, recebeu a visita do Filho Rico das Grandes Terras.
Na época em que o Menino de Castora nasceu, Nestor descuidou-se tanto da segurança da casa a ponto de colocar uma fralda no portão e as chaves no berço da criança, levando, naquela noite onde o bebê chorara e chorara até não mais poder, à casa dormir desprotegida. Lourdinha, que se amarrava e se prendia com ferros e couros à cama, conjeturava sobre seu desejo com a força de um animal ferido, sabendo que a visita do jovem convidado pelo cura nada mais poderia significar que um casamento vantajoso, proposta a qual ela estava disposta a declinar. Tantos eram os gritos do Menino e as lamúrias de Lourdinha que certos passos passaram despercebidos como se fossem obra dos ventos que giravam no pátio, e o trotar de cavalos mais parecia o canto de algum inseto noturno do que a marcha que se seguia de fato. O Filho Rico das Grandes Terras enlaçou Lourdinha com a corda de seu cavalo, e a levou, junto com seu bando, para a casa de papai, onde decidiriam o que fazer com ela.
Mas Lourdinha estava tranqüila. Apertando o escapulário, foi levada, santa, na garupa do cavalo, e mesmo nua ninguém poderia dizer que não estava vestida. Os rapazes cuspiam suas línguas afiadas, e admiravam os pés brancos da nhazinha, que ao contrário das outras mulheres capturadas, não possuía patas de bode ou rabo de mula; Lourdinha, ao contrário, era tão pura que nem humana parecia. Os demônios largaram Lourdinha em frente ao seu pai, que a apalpou a fim de ver se não era de plástico. Lourdinha não temeu o enxofre ou os olhos cujas pálpebras piscavam de baixo para cima. Deu a mão ao Pai Rico das Grandes Terras e propôs um trato.
Na manhã seguinte ninguém mais ouviu falar de Lourdinha. Fato é que a cidade anda grande, atendendo hoje como pólo industrial, sendo também ponto para romarias e venda de rosários e escapulários com a imagem de Santa Lourdes da Matina. Há quem diga que Lourdinha casou-se com o Diabo e foi viver santa no Inferno, mas eu creio que não. Castor e Nestora fizeram de tudo para que seu Menino fosse padre, e levaram uma vida tranqüila, na casa em que o pátio guarda o vento, até morrerem de tanta solidão na virada do ano passado. Em sua casa ainda se escutam passos, que todos dizem ser fruto das correntes de ar, mas para mim é Lourdinha, que arranjou uma boa desculpa para ser esquecida. Um dia aproveito que o portão anda aberto e passo lá a fim de investigar. Um dia.
Lourdinha levava nome de virgem em peça de Nelson Rodrigues.
"há, num tempo remoto, um homem e uma mulher num bote que atravessa o rio e um temporal que começa a se esboçar no céu. o homem rema compenetrado e em silêncio, enquanto a moça, com o olhar distante, parece ignorá-lo. no entanto, é fato, compartilham um barco e é importante entender o porquê disto. talvez eles sejam estranhos numa ocasião fortuita, o homem conduza a moça por dever de cavalheiro, a moça aceite a condução por não contar com outra alternativa.
porém, observemos mais um pouco esta situação. vê bem que a moça tosse com alarde, ao modo das tísicas daquela época, talvez com ênfase premeditada, a fim de chamar a atenção do rapaz. repara que ele por um momento se distrai da sua tarefa e expressa alguma apreensão, mas contém a iniciativa de dizer qualquer coisa e volta à circunspecção, a testa franzida e o olhar grave mostram algum rancor. diante disso, a moça se vira dando as costas ao seu condutor, o que deixa transparecer algum despeito, pára de tossir e olha fixamente para a margem a que se aproximam. Podem então ser namorados em desavença, voltando de um dia de passeio mal sucedido em que nenhum dos dois sabe afinal o que foram fazer ali. e, ainda, no entanto, um temporal está a se formar no céu.
mas, sejamos racionais e voltemos ao ponto de vista inicial, que é mais abrangente. ao chegarem ao pier, o homem prende o bote e ajuda a moça a descer, sem ainda trocarem palavra. Feito isso ele faz uma solene reverência e se despedem sem nenhum entusiasmo, cada qual indo numa direção. Súbito, ele pára, como quem lembra de algo, talvez um remédio para a tosse, e se volta como que para dizer alguma coisa a moça, mas desiste ao ver que ela já está muito longe. dá de ombros e segue seu curso. Ela, nem se dá conta disto, já lhe dá as costas muito à frente, com o olhar novamente distante, talvez lembrando do primeiro amor. Afinal, não eram mesmo íntimos e têm cada qual o seu caminho para seguir. Ao que parece, o passeio no rio foi um fato inoportuno e banal, uma formalidade ou um favor talvez. e agora tudo que resta é a tempestade que já se consolida no céu mas que curiosamente não se precipita.
Afinal, sigamos estes dois bem de perto para revelar suas verdades. A moça mora num sobrado nos arredores. entra no seu quarto, tira alegremente da gaveta um bolo de cartas e suspira feliz ao olhar pela janela que dá vista para o outro lado do rio. o rapaz, mora numa casa perto do pier, onde ele mantém mais dois botes como aquele em que conduziu a moça. está sentado à escrivania, suspira melancolicamente, e começa a escrever uma carta.
e a tempestade que parecia certa começa a se desvanecer."
(porque eu sei que você escreveu isso quando eu não estava olhando, e sei que uma idéia leva a outra; adianto porém o final feliz)
Depois eu e a Carol fomos pro milo, eu discotequei por meia hora, o dj me comprou um girassol e tentou dez vezes me roubar um beijo, ao que eu dizia a mesma coisa que os caras da peça ("por favor, sou casada", frase ambígua que se a vida fosse mesmo como ela é - e eu fosse muito infeliz e tivesse mais que quarenta anos - significaria apenas um sinal verde), e o dj Gustavo me deu carona até a rodoviária, e eu consegui despistar do beijo, e aí estava no ônibus ao lado de um pregador d'A Palavra, que me distraiu até Taubaté, onde eu dormi até quase chegar em casa.
E esse foi o lado B do meu fim-de-semana em São Paulo.
Bem sabido que mantenho um fotolog, onde, por razões diversas, publico diversos a retratos, a maioria de minha autoria, de mim e de outras pessoas a quem prezo. Pois bem; nos tempos da super-exposição via internet é bastante fácil apropriar-se indevidamente de fotografias alheias, descontextualizá-las (preferencialmente de modos ofensivos) e incluí-las em um ambiente de cunho zombeteiro, onde se pode estar protegido pelo véu do anonimato. Tais ambientes podem ser o já não-tão-hype orkut ou um projeto que eu pelo menos considero bastante inteligente, que é a enciclopédia eletrônica Desciclopédia, que pelo nível presumido dos que costumam ler esse blógue já deve ser bastante familiar.
Recebi um comentário anônimo no meu fotológue, por parte de um indivíduo até cujo sexo me é impossível auferir. Esse comentário, por ter sido o primeiro em um post que coloquei hoje pela manhã, chamou bastante a minha atenção e de outros visitantes eventuais do /ameirinho, pois possuía um link direto para uma página na referida enciclopédia virtual desciclopédia, indo diretamente ao verbete indie. Aos curiosos, o link: http://desciclo.pedia.ws/wiki/Indie .
O verbete não continha nada de notável. As brincadeiras clássicas, perpretadas no orkut e amadurecidas em um ambiente mais acadêmico, incluindo as típicas citações de Oscar Wilde; nada capaz de chamar a atenção de uma alma experimentada em idiotias virtuais como a minha. Havia, contudo, uma fotografia que me é bastante familiar; aliás, um dos meus retratos favoritos, tirado por um amigo cujo senso de humor até me fez desconfiar ser de autoria sua a zombaria. O retrato continha uma legenda questionando meu gênero, o que até então não consiste uma ofensa, haja vista ser do meu feitio tecer dúvidas em terceiros em relação não apenas a minha sexualidade como ao meu sexo. De certo modo, é fascinante ver uma mulher travestida de homem, enquanto um homem travestido de mulher pode ou não ser patético (caso da Roberta Close, galerinha). Enfim, nada de original: Diertrich fez isso bem antes de mim.
Clicando porém na foto, abre-se uma nova janela, que contém abaixo uma legenda, vinda do contribuinte que fez o upload da imagem. A legenda é formada por três palavras, extremamente ofensivas e patéticas haja vista sua brutalidade, que dadas as liberdades por mim estabelecidas para a publicação nesse blógue não vejo por mal divulgar. "Exemplo de piranha" é o codinome a mim dado pelo indivíduo que colocou a referida foto no verbete indie, contendo logo acima a origem da imagem, que aparece simplesmente como amanda.jpeg.
A desciclopedia, por ser uma enciclopédia aberta, apresenta assim como a wikipedia a origem de suas fontes bem como o codinome dos seus colaboradores virtuais. O codinome do indivíduo que fez o upload da minha fotografia, e de quebra incluiu a elogiosa legenda, é Kfanfarra. Um nome bastante infantil, conjecturarão vocês, haja vista a junção do nome um lutador de King of Fighters e uma referência explícita à pândega típica de programas como Hermes e Renato. Decerto, é um apelido criado durante a adolescência, para um rapaz cujo nome e sobrenome causavam o riso constante entre seus coleguinhas de sala; afinal, Costa Rêgo é uma composição um tanto ingrata, no meio da escola secundária, para a denominação de um indivíduo.
Gostaria de chamar o referido Kfanfarra, que não apenas incluiu uma fotografia que não lhe pertence em um verbete pouco elogioso, a certos fatos que porventura lhe despertam até hoje a ira a ponto de perder a cabeça e almejar ofender-me em uma instituição sacra como a desciclopédia. Creio que os eventuais leitores sabem das complicações que envolvem relacionamentos amorosos durante a adolescência, idade onde a volatilade rege sentimentos na semana passada tão estanques quanto a pedra da Urca. O autor da ofensa é, no entanto, uma exceção à regra. Dedicou, à sua maneira, um intenso e duradouro amor pela minha pessoa, não-correspondido imediatamente diga-se de passagem, que após várias enrolações, incluindo algumas puladas de cerca com sua namorada na época, acabou por ganhar um ponto final - da parte dele. Viemos a nos reencontrar em Março desse ano contudo, onde tecemos juras um para o outro, e poderíamos crer em uma reconciliação se por sorte, alguns dias depois, eu não me tivesse chamado à razão e percebido o quão idiota seria da minha submeter-me a uma relação naquele estilo. E creio que, na época, agi bastante bem.
A data de upload da foto é 20 de Novembro, que coincide com o dia onde informei ao referido Kfanfarra que estava feliz e bem casada. Recebi do outro lado uma praga referente à gordura passível de ser adquirida com as benesses do casamento, que me deixou bastante apreensiva, haja vista que na última visita à casa da minha mãe o tópico principal da conversa foi justamente meus quadris em expansão. Ignorei contudo o comentário, assim como a existência desse, se assim posso classificá-lo, ex-namorado em minha vida, ressaltando o clima de felicidade no qual me vejo emersa há algum tempo.
Ao ver que a ofensa era claramente de autoria sua pensei, em um primeiro momento, em abrir um processo. Lembrei-me contudo que nada conseguiria obter do indivíduo ofensor, além de um pedido de desculpas formais, já que sua situação financeira não é realmente das melhores. Depois, meu marido sabiamente me lembrou que violação de imagens na internet não é privilégio meu. Wanessa Camargo que o diga.
Logo, optei em colocar um educado post de retaliação nesse blógue. Por inocência creio na bondade entre os seres humanos, assim como meus olhos brilham quando passeiam na sessão de enfeites de Natal nas Americanas. Estou, é claro, decepcionada por haver dado... é, eu dei mesmo... crédito ao caráter de um indivíduo que se provou bastante mesquinho em relação aos seus sentimentos, assim como me sinto, inflando agora meu ego, bastante lisonjeada ao perceber que continuo abalando corações por aí.
Termino com uma citação de Ovídio, do livro "O remédios para o amor":
"12° Sem nenhum rancor
(...)É vergonhoso ver um homeme e uma mulher, ontem unidos, se tornarem bruscamente inimigos. Ápia não aprova esse procedimento. Muitas vezes uma amante é acusada e assim mesmo é amada: quando não há inimizade, o amor, livre de qualquer constrangimento, se afasta prontamente. (...) É mais seguro e mais decente se separar em paz do que passar, de um leito, às chicanas dos processos. Os presentes que você deu, deixe-os sem contestar; geralmente, um pequeno sacrifício traz um ganho maior."
Espero que a leitura desse post os tenha entretido, leitores não muito freqüentes do histrionissima. Eu por hora vou é voltar ao Umberto Eco, pois tenho muito o que estudar até terça feira.
Sem mais,
A.M.

