/histrionissima histrionissima histrionissima

Cá estamos, presos nesse rio, eu e você debaixo de um céu que nunca desaba.

(cai, cai, cai)

Um céu que nunca desaba.

Pelo dia, como em um oceano, esperando aqui sempre sem conseguir se lembrar por quê viemos.

(vem, vem, vem)

Eu me pergunto por quê viemos.

(tantantantaentaentantantanto...)

Você fala comigo como se estivesse longe, e eu replico com impressões escolhidas de outros tempos.

De outros tempos.




Não estava lá. Simples. Havia sumido, e, acima de tudo, desaparecido sem testemunhas. Entre os livros, dentro da carteira, fundos de bolsos, e nada. Sentou-se e os amigos a ajudaram, mas não estava. Inútil. Sugeriram que se acalmasse, que tentasse se lembrar onde havia perdido, e como, mas uma espécie de calma resignada a havia dominado. Paralisia. Entorpecentes. Não era adrenalina, era impotência, e só. Felizmente conseguiu derramar uma, duas ou três lagriminhas, mas não por desespero, e sim porque acreditava ser essa a reação esperada. De qualquer modo já fazia as contas. Vamos voltar para o cinema?

Felizmente os amigos eram bons amigos. Lhes devo essa. O carnê com sete ingressos fora achado por uma moça que trabalha para o Festival. Daí, foi preciso ligar para uma que conhece outro que conhece a coordenadora de todas as moças do festival que, evidentemente, conhece essa moça dos ingressos e pronto, problema resolvido. Só conseguiu falar no último telefonema e deu tudo certo. Mais ou menos, pois só acreditava vendo.

Adriano Belisário, Luísa Oiticica, e Marina Andrade, nem sei como agradecer direito. Vocês gostam de chocolate ou preferem cerveja mesmo?




Ou era vivo ou simplesmente não era, sem meio termo.

Todos os nomes de todas as estórias já ouvidas, principalmente os sobrenomes da terra
Todas as pessoas que existiam no papel, principalmente aquelas cujo rosto era um mistério,

nenhuma dessas coisas existia.

Grandes personagens uma ova. Simulacros.

Maria Inês Santamaría da Fonseca, Luciano Ribeiro Brandão, Daniela Castro de Almeida, Roberto Simões de Abreu, Vítor Mello da Cunha, Vinícius Nascimento Pereira , Renata da Cruz Varela, Diego Costa do Brazil, Ana da Rosa Mattos, Lívia Raposo da Silva, Luiz Sánchez Santos, Mariana Gomes Freire, Pedro Machado Trigo, Rômulo Jacinto de Paula, Danilo Álvaro Magalhães, Aline Vaz de Cintra, Isabela Cravo Aleixo, Lucas Nerval da Luz, Camila Veiga Marinho, Ricardo Lins Cardoso, Paula Alcântara da Motta, Gabriela Antunes Ribeiro, Alexandre Araújo Alves, Alberto Sales de Oliveira, Rafael Meirelles Vianna, Melissa Bentes LeaL, Fernanda Senos da Rocha, Taís de Alencar Vieira, Plíneo Branco de Assis, Míriam Damasceno de Queiroz, Leila Maia Goes.

Algum desses nomes não lhe parece verídico? perguntou o psicólogo.

Jurou que nunca mais inventaria. A partir de então não ousaria mais olhar para as teclas, a tela branca, e criar estórias com pessoas falsas, com nomes falsos, estórias falsas,

principalmente aquelas com final feliz,

e desistiu da idéia de escrever a peça de teatro anual da escola. De ser roteirista de cinema. Desistiu até de ter um blógue.

Tudo, tudo é falso.

O psicólogo pareceu marcar um "x" em seu papel de anotações.

Doutor, é grave?

Silêncio. Será que falhei no teste?

Maria Inês Santamaría da Fonseca, Luciano Ribeiro Brandão, Daniela Castro de Almeida, Roberto Simões de Abreu, Vítor Mello da Cunha, Vinícius Nascimento Pereira , Renata da Cruz Varela, Diego Costa do Brazil, Ana da Rosa Mattos, Lívia Raposo da Silva, Luiz Sánchez Santos, Mariana Gomes Freire, Pedro Machado Trigo, Rômulo Jacinto de Paula, Danilo Álvaro Magalhães, Aline Vaz de Cintra, Isabela Cravo Aleixo, Lucas Nerval da Luz, Camila Veiga Marinho, Ricardo Lins Cardoso, Paula Alcântara da Motta, Gabriela Antunes Ribeiro, Alexandre Araújo Alves, Alberto Sales de Oliveira, Rafael Meirelles Vianna, Melissa Bentes LeaL, Fernanda Senos da Rocha, Taís de Alencar Vieira, Plíneo Branco de Assis, Míriam Damasceno de Queiroz, Leila Maia Goes.

Pegou a lista e guardou no bolso. Próxima parada, google.

para: ma_in_st@provedor.com
subject: none

cara Maria Inês Santamaría da Fonseca,

Vi seu nome em uma lista de nomes que eu não achava que eram nomes de gente. Procurei seu nome no google e vi que seu nome pertencia a uma pessoa, e o melhor, uma pessoa física. Creio que todos nós deveríamos refletir mais sobre a facilidade para terceiros inventarem nomes que são nossos e sem perceber nos intrigar sobre quem somos.

Perdão pelo incômodo.


Mandou a mesma mensagem, com a mudança, claro, da saudação, para todas as pessoas que existiam atrás daquele nome. O resto esqueceu. Confiava na capacidade do google de identificar a todos.

Doutor, como temos certeza que um nome falso é falso?

O psicólogo deixou de desenhar estrelinhas em seu papel de anotações. Deu-lhe um espelho e esperou. Nenhuma reação.

Isso faz de mim um louco?

Ou era vivo ou simplesmente não era, sem meio termo.






you are my sweetest downfall,I loved you first , I loved you first beneath the stars came falling on our heads but there just soft light, there just soft light

(your hair was long when we first met)








Aurora era como a chamávamos, enrolando a língua como qualquer bom nome, Aurora Boba, ou Aurora Moça, dependia do humor. Dava as mãos para um de nós e pedia sempre uma estória, e enquanto enrolávamos a língua para contá-las, Aurora Fofa punha o indicador nos lábios e fazia um Silêncio maior que as horas. Aurora Tempo se deitava em nossos ombros, e se fazia de bicho quieto enquanto sussurrávamos milhas e milhas à frente os contos de amor infeliz e perdido mais bonitos, rebuscando e empolando porque ela merecia. Quando Aurora Sono fechava os olhos todos nós a observávamos dormir, se aproximando de mansinho, transformando as distâncias de milhas para metros e centímetros, e continuávamos a contar as estórias mais bonitas porque queríamos ser pedaço de sonho de Aurora Linda.

Ao acordar, Aurora Nua resolveu fugir do ombro das Estrelas e se embrenhou no mar de luz. Nós a observamos partir, primeiro alto e depois triste, enquanto o Sol cobria com o Azul dos dias o manto onde nós nos escondíamos. A Lua disse que Aurora Boa logo voltaria, que Aurora Rosa um dia sorriria, que Aurora Clara apareceria como uma noiva, tão faceira que nos silêncios mais compridos todos disputariam seus suspiros. Mas Aurora não voltava. Quem sabe um dia ela chegaria?

Naquele tempo que só nós sentimos, enquanto o Sol nos ofusca com seus claros brilhos, naqueles meses em que corremos todos os continentes em busca de Aurora Longe, todos nós juntamos mais e mais estórias compridas. Tantas estórias que as passamos adiante para naves espaciais, irmãs-Estrelas e Buracos Negros, duendes e outras coisas que não existem, e sem querer acabamos montando A Grande Estória de Aurora Simples. Tão lindos nossos contos que Ele até chegou a acreditar. Ele, munido de um coração que lhe arrebatava o rosto, prometeu ao nosso sindicato que encontraria Aurora Bela, com um cantil d'água e uma espada cinza. Ele, cujo nome ninguém nunca saberia, prometeu acabar com nossa saudade, e fez de nosso choro a bússola para encontrar Aurora Fuga. Partiu com o coração tão pesado que disfarce nenhum conseguiria esconder e uma Vontade maior que o Juízo.

Aurora Nossa foi encontrada muito, muito ao norte, tão longe que nunca a perceberíamos, casada com o cavaleiro do coração gigante que fora buscá-la. Nós, as Estrelas do Sul, entendemos das obrigações de Aurora Boreal, mas lhe passamos um pito bastante alto por ter por tanto tempo sumido. Naquele ano o inverno fora longo, as vacas não tinham pasto e nevara até em Cuba. Aurora Tonta pediu desculpas meio sem jeito, e nós a perdoamos porque no fundo a amamos. O cavaleiro nos disse que tudo já fora resolvido, que Aurora e as Estrelas em poucos meses se reuniriam, que os meses passam mais devagar quando a espera é certa. Cansados como estávamos, retornamos aos reinos do Sul e sentados ao lado da Lua pedimos um canto triste até o retorno de nossa musa.

Aurora Austral se despediu de seu marido e foi nos dar uma longa, agradável visita. Deu as mãos a um de nós e pediu estórias, e enquanto limpávamos a garganta para contá-las, Aurora Adulta punha o indicador nos lábios e fazia um Silêncio maior que as horas. Nós amamos Aurora e Aurora dorme agora. Tão bela. Tão cor-de-rosa.

A rainha de nossos contos favoritos.





Considerava natural a ordem invertida das coisas. Aproveitou o vácuo para ouvir um pouco de música, comer jaboticabas, e, se sobrasse tempo, praticar a arte de evitar pessoas inevitáveis. Ponderou: telefonaria para um ou dois amigos, faria uma festa em sua casa, e provavelmente seria o mais chapado da turma se fizesse sol; se chovesse, contaria os minutos em silêncio enquanto o miojo não ficava pronto. Somadas todas suas pequenas paixões, conseguiria montar uma lista comprida, dessas que não merecem figurar no orkut, ao lado de uma definição ou outra, sempre inexata, sempre ridícula. Pouco antes do sol se pôr lavou suas cuecas e, abrindo o word, pensou em Isabel.

Querida,

Esses seus cabelos que crescem até as orelhas, um tanto rebeldes e sem jeito, de uma cor que oscila entre tantas tintas desde a adolescência, esses seus cabelos sujos e feios são a moldura perfeita para seu rostinho bonito. Procuro amar sempre os que possuem defeitos o suficiente para serem todos um charme, e um charme que me leve a pensar em levá-la para a cama, ou enquanto ando, sem esperanças ou dinheiro no bolso, pelas ruas da cidade, imaginá-la nua, nuinha, pedindo para ser minha. Seu nariz é torto e você sabe disso, mas eu o amo do mesmo jeito que seus 45 quilos cabem perfeitamente em meus braços, e os quero da mesma forma que gosto do que seus dentinhos, amarelados e tortos, fazem quando eu minto de propósito. Perto de você não sou homem, sou bicho, melhor, um daqueles tigres de pelúcia que você compra compulsivamente nas Lojas Americanas e leva para a minha casa, com um sorriso tão meigo que parece pedir para ser beijada. Minha querida, diz que você acredita que sou um tigre, um tigre bobo e sem graça, daqueles que só servem pra ser despelados, diz que você me ama por ser um bichinho infeliz, diz que você me quer por saber que eu não valho nada. Sei que você é linda, mesmo com aquelas suas roupinhas tão pesadas, e muito embora eu ache você um tanto magrela, faria de você minha rainha, minha concumbina, a mãe de meus filhos e escrava sexual favorita. Ah, meu bem, como eu amo seu jeito histérico de dizer que me ama, como eu desejo aqueles seus gritinhos quando você finge que goza, como eu gosto daquele peidinho cor-de-rosa que você solta quando dorme em meus braços! Amo, amo você, minha Belinha, amo de um jeito brega, de um jeito tolo, amo muito além dos exageros, amo que nem aquele cara do filme que foi até o fim-do-mundo à cata da esposa, amo quando você cospe no prato a comida que eu mesmo preparei e quando você empestinha toda a casa com o cheiro das suas tintas de cabelo. Simplesmente penso em você todos os segundos que me restam, e me masturbo olhando as suas fotos no orkut, por mais idiota que possa parecer.

Te amo com força,

Carlota.


Decidiu que o texto estava ruim o suficiente para ser mandado na forma de testimonial. Isabel, meio bêbada ainda após o aniversário de cinco anos de uma prima sua, resolveu responder à altura. Vomitou uma massa vermelha no banheiro antes de se inclinar na frente do teclado.

Querido,

Esses seus cabelos que crescem até os ombros, empastados de gel e sabão de coco, de uma cor que oscila dependendo do seu daltonismo são a moldura perfeita para seu rostinho barbado. Procuro amar sempre os que possuem charme o suficiente para serem todos um defeito, e um defeito que me leve a pensar em levá-lo para o banheiro e imaginá-lo morto, mortinho, com a cara na privada. Seu nariz é torto e você não sabe disso, mas eu o amo do mesmo jeito que seus 15 centímetros me fodem com folga, e os quero da mesma forma que gosto da cor que sua pele, fina e branquela, fica quando eu a mordo de propósito. Perto de você sou o homem, sou gente, melhor, um daqueles caminhoneiros que descem a porrada nas putas quando chegam em casa, com um sorriso tão imbecil que parece pedir pra ser espancada. Meu querido, diz que você acredita que sou um caminhoneiro, um caminhoneiro forte e calejado, daqueles que só servem pra ser sodomizados, diz que você me ama por ser um brucutu do pau duro, diz que você me quer por saber que eu valho mais que você. Sei que você é feio, mesmo com aquelas suas roupas de marca, e muito embora eu ache você um tanto gorducho, faria de você meu marido, meu empregado, meu eunuco, o pai de meus sobrinhos e escravo sexual preterido. Ah, meu bem, como eu amo seu jeito cínico de dizer que me ama, como eu desejo aqueles seus espamos quando você tira o pau pra fora, como eu gosto daquela peidorreira nojenta qie você solta quando durmo em seus braços! Amo, amo você, meu Carlotinha, amo de um jeito errado, de um jeito fofo, amo muito além das verdades, amo que nem aquela mulher do filme que largou o marido porque estava entediada, amo quando você estraga a receita que eu mesma te ensinei e quando você empestinha toda a casa com o cheiro do seu xampu anti-caspas. Simplesmente penso em você quando me restam uns segundos, e só não me masturbo olhando suas fotos no orkut porque seu profile é fake, de tão idiota que você é.

Te forço com amor,

Isabel.


O orkuticídio coletivo não levou nem dois dias para ser consumado.




The evening was long, my guesses were true
You saw me see you
That something you said, the timing was right
The pleasure was mine
The time and the place, the look on your face
Sincerest of eyes
If you're ready or not, the state of our hearts
There's no time to take

When we started both brokenhearted
Not believing
It could begin and end in one evening

We were caught by the light
Held on to the day till it became ours
The minutes went by, the cab is outside
There's no time to take
When we parted, moving on
And believing it could begin and end in one evening

When we started both brokenhearted
Not believing it could begin and end in one evening
When we parted, moving on
And believing it could begin and end in one evening



porque leslie feist é a mulher da minha vida




Estou em um período confuso na minha relação com A. O que antes acreditava ser apenas uma amizade - e, dados os significados mais claros, isenta de luxúria - transformou-se, com a ajuda de uma relativa intimidade, em deliciosa tensão sexual. Todas as cores do arco-íris estão presentes em meu sono; não é raro sonhar que durmo com uma prima ou com o ex-namorado de uma amiga... mas meus sonhos com A., até certo momento, possuíam uma castidade que beirava a histrionia. Preciso ressaltar, porém, que até então minha amizade com A. era um conceito quase puro, calcado principalmente em nosso primeiro contato, quando ambos estávamos comprometidos. O tempo fez o favor de nos tornar, novamente, em indivíduos celibatários, de forma tão mansa que de modo algum atrapalhou nossa relação. Fora um selinho dado em uma brincadeira infantil, regada a cerveja barata, não mantivemos nenhum contato de teor amoroso, ou que pudesse ser interpretado como tal. Dos meus amigos, arrisco a dizer que A. é o único com quem mantenho laços de companheirismo e amizade estreitos sem nunca havê-lo beijado. O desejo ainda não havia nascido. Ou era plenamente controlável.

Comecei a olhar A. com outros olhos a partir de um sonho, a princípio, estranho. Em uma casa de praia, completamente entupida por quase todas as pessoas que conhecíamos em comum, senti que A. se aproximava de mim delicadamente, e logo tocava meus braços, pernas, sexo, com muito cuidado para não se fazer ver pelas outras pessoas. Ao notar o meu sorriso quando falava algo bobo, bruscamente tratava de tapar meus lábios, como se fizesse algo proibido. Eu viro então meu rosto, dou-lhe um meio-beijo, e deito ao lado de uma amiga, que logo se mete em um intricado joguinho sexual comigo. Ninguém percebe nada. Sei que devo ter sonhado com a tal casa de praia devido a planos mirabolantes, discutidos em mesas de bar, quanto ao próximo destino das férias. Mas nunca havia imaginado que um evento tão remoto seria cenário para as minhas, ainda que inconscientes, fantasias sexuais.

Os outros sonhos tinham, inevitavelmente, a tal casa de praia como pano de fundo. E, claro, os nossos amiguinhos em comum. Uma seqüência um tanto sem sentido, envolvendo carícias, conversas sobre temas aleatórios, e uma atenção desmesurada para o olhar dos outros, culminou com um derradeiro sonho onde, deitados em um colchão grande, estávamos eu, A., uma amiga e um amigo. A moça, que já havia beijado A., nutria sentimentos em relação ao rapaz que de certa forma freavam meu impulso de beijar seu pescoço, da mesma forma que não conseguia conter meu desejo e o disfarçava por meio de gargalhadas quase histéricas. Como eu e A. estávamos entre essa amiga e esse amigo, e, mesmo se tratando de um sonho bastante colorido nenhum de nós se mostrava apto a se arriscar em intricadas posições sexuais, simplesmente esperamos que o cansaço viesse de modo que bastasse apenas a nós mesmos naquela cama lotada. Quando aparentemente nossos dois amigos estavam adormecidos, olhei sorridente para A., que segurou meu rosto com força. Acariciamos com os lábios o rosto um do outro, como se ao invés de nos beijar, delicadamente tentássemos nos morder. Fechamos os olhos.

Ao me levantar no meio da noite para beber água ou realizar qualquer outro ritual típico dos que se cansam pouco durante o dia senti a presença de A. atrás de mim. Uma tensão estranha gelou-me a espinha, e me mantive imóvel em uma espécie de momento-verdade, sem esboçar reação alguma além de um leve suspiro - claramente, um suspiro de prazer. A. beijava meu pescoço, minhas costas, meus braços, beijava até mesmo meu calcanhar, sem contudo ousar de aproximar de meus lábios, como se temesse que algum tabu fosse quebrado. Sussurrei algo sobre o perigo de sermos vistos assim, tão próximos, tão agarrados, enquanto sentia que pouco a pouco minha blusa era retirada. A sensação de entrega beirava a vertigem. Não minto.

Um certo sentimento de culpa nasceu contudo quando a lembrança de todos os que haviam desejado A., assim como todos os que me haviam desejado, apareceu de súbito na forma de flashes aleatórios. A despeito da excitação crescente, somada ao cheiro bastante forte de sexo em nossas mãos, interrompemos nossa loucura ligeiramente pública aos nos vermos dominados por lembranças - muitas destas ainda bastante vivas. Olhamos um tanto decepcionados um para o outro, como se sentíssemos que nossa amizade, calcada há muito tempo em relações convivais não-libidinosas, houvesse para sempre se transformado em algo indefinido; talvez melhor, porém, de certo, desconhecido. A partir de então não saberíamos mais quais sentimentos nasceriam, ou, dadas as circunstâncias, prevaleceriam. Um tanto nervosos aproximamos o rosto um do outro. E esperamos.

O beijo, mesmo se tratando de uma produção inconsciente, foi acompanho de toques e carícias que modificariam para sempre, dessa vez no que convém chamar de realidade, minha relação com A.. Os olhos com o qual passei a observá-lo eram os olhos do desejo, que espreita silenciosamente sua presa sem, porém, confiar a ninguém seu segredo. Da mesma forma que, nos sonhos, eu e A. tentávamos nos morder sem nos ferir, tomamos agora mais cuidado com as palavras, sem perder nunca o tom de companheirismo que marcava sempre nossa amizade. Não sei se A. me vê atualmente como uma mulher, ou se o fato de termos o mesmo sexo atrapalhará um pouco essa percepção. Continuo afetando certa indiferença, e afirmo com segurança que, de olhos bem abertos, não sinto nada além de uma confusa atração pelo rapaz.

Mas se der mole eu PAM.




Marcinha chamava todos pelo diminutivo, pois achava engraçado como as palavras ficavam mais compridas e ao mesmo tempo delicadas quando era metido um "inho" no final. Quando criança, seus poemas eram sempre sobre o elefantinho Taiti, que tinha um filhotinho tão bonitinho chamado Bolinho e tantas outras fofuras que os pais apenas balançavam a cabeça em desgosto. A certeza que sua filha era uma desmiolada só cresceu com o correr dos anos, quando, na adolescência, seu apelido na escola era Pingolinho. "Onde já se viu", resmungava a mãe, "achar fofa até a cara do diabo?".

O primeiro palavrão que saiu da boca de Marcinha, segundo ela mesma, era apenas um "putamerdazinho", seguido de um "caralhinho" e um "porrinha", ditos com a língua entre os dentes e um sorriso bobo mal-disfarçado. Sua mania de meter um diminutivo ao fim das palavras lhe rendeu algumas inimizades, talvez porque o sarcasmo tenha sido ensinado cedo demais nas várias escolas que Marcinha freqüentou no correr de sua vida. Afinal, quer algo mais ofensivo que um "queridinha"?

O carinho e a fofura das palavras de Marcinha eram, com raríssimas exceções, sempre entendidos como sinal de soberba. Quando, na aula de educação artística, elogiou a colagem de uma coleguinha, escutou atrás de si um eco jocoso, além de olhos agressivos que a magoavam muito. Ora essa, ela realmente tinha achado o trabalho muito bonitinho. "Será que falei algo de errado?" se questionava Marcinha. Não, Marcinha nunca falava nada de errado. No máximo expressava mal o que sentia. E como para ofender não é preciso querer, Marcinha com o tempo foi se tornando uma moça calada. Bastante quietinha.

Aos dezesseis anos Marcinha cultivava uma amizade bonita com Paula, uma garota que, assim como ela, tinha vergonha de dizer do seu jeito o que sentia. Metida em sua cama de fronhas e babados lilases, apertando seus ursos de pelúcia e colocando discos com músicas da moda em volume baixo, pelo telefone Paula dizia a Marcinha segredos sobre os homens de sua vida, muitas vezes mentindo lá pela metade da estória, pulando sempre a descrição de como era, se doía, se era bom, se não era. Marcinha ouvia as estórias de Paula com uma ansiedade terrível, enquanto recortava pedaços de nomes, de rostos e fitinhas coloridas para embelezar as paredes de seu quartinho. "Paciência, benzinho, paciência".

Quando Marcinha visitava Paula ambas fumavam cigarrinhos estranhos, que as faziam deitar molengas no carpete, repetindo o refrão dos discos que Paula gostava sem muita disciplina. Marcinha às vezes beijava Paula, que beijava Marcinha, e depois riam calminhas enquanto a pipoca estourava no microondas.

"Call me morbid , call me pale,
I've spent sixteen years on your trail
Sixteen years on your tra-ai-ail..."

Passaram rápidos aqueles meses para os dois bichinhos. Martinha, que nunca havia beijado uma pessoa tão bonita, imaginava estórias fantásticas, onde ela e sua Lilinha apareceriam na Hebe com o casal de gêmeos que haviam acabado de adotar, um vietnamita e a outra nigeriana, igualzinho aos filhos da Angelina Jolie com o Brad Pitt. Ao mesmo tempo tinha medo do ano que vem; afinal, suas notas iam caindo e o ano já estava para acabar.

Paula continuou no colégio. Marcinha foi mandada para um curso pré-vestibular mais próximo de sua casa. Como a distância foi se acentuando, aos poucos Marcinha e Paula se habituaram a não se ver mais, pois as provas eram aos sábados para uma e aos domingos para outra. Uma pena.

Marcinha com os anos se esqueceu de usar o diminutivo para falar o que sentia. Se casou nova, largou a faculdade e com o tempo foi secando. Outro dia nos encontramos na rua. Marcinha, que agora só se faz tratar por dona Marciana, reclamou do tempo, sempre frio demais, quente demais, ou feio demais. Falei de Paula, e ela riu de um jeito meio bobo, meio carinhoso. Diz que suas filhas são todas umas retardadas, que nenhuma um dia será forte nessa vida, e, como todos nós, morre de medo da morte, mas já se acostumou com a idéia de não conseguir fazer tudo que queria durante a vida.

Dona Marciana trata seu marido pelo sobrenome e não elogia nunca o trabalho de ninguém. No máximo diz um sarcástico "muito bonitinho". Continua odiada por alguns, só que, ao contrário de antes, é respeitada. Dizem que força e rudeza andam de mãos-dadas. Que seja.

Soube que Dona Marciana ainda guarda a doçura de outrora em um baú bem fundo. Só que, infelizmente, se esqueceu onde a chave está guardada. Será que alguém um dia poderá ajudá-la?




Duvido sim, e muito, da sanidade mental de pessoas que respondem indignadas a spams. Se não gostam de receber mensagens automáticas que instalem um anti-spam em seu pc e sejam felizes. Mas parece que depois do onze de setembro qualquer bobagenzinha propositadamente irritante é terrorismo. E da pior espécie: psicológico.

Uma mensagem de "sugestão de leitura" não constitui um ataque. Não é um vírus e nem uma corrente do tipo "diz que me ama senão eu puxo teu pé na cama". Claro; quando essa mensagem aparece oito ou nove vezes em sua caixa de entrada é sinal de alerta. Mas não é mais fácil apagar todos os e-mails repetidos e posteriormente solicitar uma exclusão das listas, em casos extremos? Ou então simplesmente implementar seu firewall?

Não! O legal é encher o saco da estagiária. É bacana mandar mensagens ameaçando a dignidade profissional da empresa. O hype agora é enviar broncas histéricas grafadas em caps para a moça. Afinal, esse negócio de educação é so last week...

Esses leitores andam muito esquentadinhos. Dizem que vão denunciar esse esquema ardiloso de spams para todos os jornais em rede nacional e o caralho a quatro. Creio que devo ir logo pra um descarrego e tomar uns banhos pedindo proteção, que a essa hora já devem ter feito mandinga pro meu lado. Vai que eu sou atropelada por uma moto e quebro o braço quando volto de um funeral de cachorro?

Já tomei uma decisão: vou pecar pela incompetência. Fiquem tranqüilos, doutos senhores que repudiam as "sugestões de leitura": a mocinha aqui nunca mais irá importuná-los recomendando livros tão tão aleatórios quanto os ingredientes de um calzonne no Pizza Grill. Nunca mais mando spams para ninguém. Cansei de ter estragado o dia de tantas pessoas.

Irei me redimir respondendo de maneiras engraçadinhas os e-mails mais mal-educados. E farei do fim dos spams literários minha plataforma principal para as próximas eleições presidenciais. Tomar no cu, porra...




Desconfiava bastante do talento para aquele ex-BBB falar em público. Tão logo o palestrante abriu a boca anotou em seu caderninho de segundas intenções alguns trechos do discurso (bakhtiniano) do figura. Entre citações avulsas de Louis Althusser, Grumsci e um ou outro Brecht deslavado, percebeu que o cara tinha mais é que dar aula de Teoria para aqueles futuros comunicológos. Com uma ponta de ironia perguntou qual era a atual profissão do objeto de estudo.

Uau. Ele era mesmo repórter do Mais Você.

Riu?

Quase.

Aquele professor com bafo diário de whisky era um retrato da decadência mais aceitável, ao lado do careca que dizia ter sido despedido pois jornalista que faz mestrado, na redação, é considerado viado. Contudo não tinha certeza se estaria imune da queda - e ainda estava baixo, muito baixo, quando um pequeno deslize não faz nenhuma diferença. Entregou o futuro a Deus, pois se considerava agnóstico, e alisou o queixo em sinal de interesse. O ex-BBB não poderia estar plenamente convencido que todo aquele desfile de conhecimentos quase inúteis o transformariam em um intelectual aos olhos daquelas víboras na platéia. Não mesmo. No máximo um intelectual orgânico - ao lado da Xuxa, do Ratinho e do Ale (do alechat). Em qual filme será que ele aprendeu que declamar teorias é sinal de sapiência? Não falou nada de novo, só para variar.

Bocejou.


Quando a palestra acabou restavam menos de vinte pessoas na sala.




"Incesto é a relação sexual ou marital entre parentes próximos. É um tabu em quase todas as culturas humanas. (...) São consideradas incestuosas, geralmente, as relações entre pais e filhos, entre irmãos ou meio-irmãos, ou entre tios e sobrinhos.

As relações entre primos, na maioria dos países, não são consideradas incesto, já que é permitido o casamento entre eles. Em alguns países ou jurisdições, entretanto, este tipo de casamento é proibido por lei, derivando daí o caráter incestuoso do ato, nestes casos.

O termo também é freqüentemente utilizado para casos de abuso sexual de menores por parte de parentes."

(wikipedia)

vovô gosta mais de mim porque eu sou mais esperta que você.




As grandes invenções daquele verão longo em meados da década de noventa passaram desapercebidas aos nossos olhos jovens, restando apenas uma ou outra memória desconexa envolvendo micro shorts de lycra, cabelos empoados e techno Ibiza. Com um tanto ainda de preguiça líamos sempre os mesmos livros da série Goosebumps, e contávamos ao pé da cama estórias assustadoras envolvendo vazamentos de gás e zumbis sedentos de sangue - da mesma forma que tínhamos medo do Boneco Assassino e sabíamos recitar milhares de lendas urbanas misturadas com pedaços de desenhos japoneses e outras formas de violência sem os olhos esbugalhados. Mas sabíamos que tudo não passava de mentira,tanto que engolíamos ainda muito do que fora feito na década de oitenta e não entendíamos o porquê de nossas sustos. Ou quando íamos para o jardim e colhíamos toda a sorte de ervas daninhas a fim de compor poções mágicas e ungüentos saídos das estórias de Cervantes, e até mesmo um desejo inconfesso de encontar aquela lagartixa de nome impronunciável do Kipling ou achar uma mina abandonada até o centro da Terra: fascínio que nos levou a tentar transformar nossas bicicletas em aviões, igualzinho àquelas crianças americanas da sessão da tarde. A piscina era o mar e o boneco era Robson Crusoe, Sexta-Feira era uma Barbie do cabelo raspado, e monogamia nunca foi um conceito de todo familiar. O tigre era amante das bonecas, o urso era amante do tigre, e assim fomos crescendo felizes naqueles verões compridos que de algum jeito deixam uma espécie de saudades porque a memória foi-se em questão de poucos, e poucos anos. O ano 2000 um dia chegou e agora percebo que quase nesse tempo eu tinha menos que a metade dos anos que tenho agora e isso me faz rir.

Com carinho, todos nós.




Falta espaço no coração de muita gente para amar. Provavelmente para entender o processo, muitas vezes doloroso, de conhecer, gostar, se apaixonar, esperar, e só então amar. Às vezes a gente inverte essa ordem, e pode até dar certo, mas sorte não é algo que se encontra grátis por aí.

Um exemplo é a estória de um moço chamado Damião. Esse rapaz, por conta de dívidas impagáveis, colocou seu coração como prêmio mais alto em uma disputa de pôquer. O jogo era entre duas pistoleiras; uma delas, jovem demais, prefiriu perder a ter que dividir o troféu. E olha que a moça tinha cartas boas! Eu, que nessa época exercia a função de crupiê, julguei a atitude da pistoleira mais jovem um tanto precipitada, e propus uma segunda partida.

Mais uma vez a moça deu a vitória para a concorrente, que a esse ponto já havia perdido a paciência. Julguei que o amor de uma pelo coração do rapaz era tão forte que não suportaria vê-lo partido em dois. Como costumo não me meter nas regras do jogo deixei com a pistoleira mais experiente o coração inteiro e tratei de dar no pé. Me embebedei àquela noite.

Soube depois que a pistoleira mais velha encheu aquele coraçãozinho mole de conversa fiada, cardápios de restaurante, traições e ligações não atendidas na caixa postal. O troço ficou tão cheio de bobagens que faltou espaço para amar. Fui me embebedar, dessa vez com razão.

Encontrei Damião no bar e ele declamou toda a carta de vinhos. Senti que esse era o único jeito que sobrava para o moço chorar. Até hoje me arrependo de não ter entregue o coração à moça perdedora. Como diria o Abba, the winner takes it all. Comprou uma vodka polonesa de cento e quarenta dinheiros e me deixou só com minha cerveja barata.

Dizem que as baratas sobrevivem por semanas sem a cabeça até morrerem de fome. Damião vive até hoje sem seu coração, rindo sem entender o porquê. Um dia ele morre de falta de paixão. Certeza absoluta. Isso se as informações que a pistoleira guardou lá dentro não o sufocarem antes. Quais são suas apostas?




Não teve gritos o seqüestro de Ana Elisa; quando mais, um ou outro arranhão e tapinhas de menina-moça com medo de bandidos. Foi levada para dentro de um furgão verde bastante bonito, que Ana Elisa não soube apreciar pois teve seus olhos vendados ainda no meio do caminho. Pudera; sem seus óculos fundo de garrafa Ana Elisa não enxergava nem um palmo à frente de seu nariz.

Os seqüestradores não perguntaram nada a Ana Elisa. Claro, seqüestradores sempre sabem de tudo... vestida com sua camisola favorita Ana Elisa ficou com medo que manchasse de graxa, tinta e outros fluidos que ficam no interior de furgões. Não queria admitir, mas gostaria de parecer no mínimo bonita pelo menos aos olhos daqueles desconhecidos. Riu baixinho e segurou o quanto pode a vontade de molhar as pernas. Desmaiou.

Quando Ana Elisa acordou chovia forte e ventava frio. Um casaco de lã bastante grosso escondia seu peito e seus braços, uma meia escura cobria suas pernas, mas sabia que um resfriado mal-curado voltaria com aquele pescoço desprotegido. Pediu água e ninguém escutou. Compreendeu que só poderiam se tratar de russos fumantes malvados e comunistas que a haviam pegado por causa de um líquido misterioso concentrado em seu apêndice que serviria de substituto natural para heroína em clínicas de recuperação para grandes estrelas do cinema local. Lembrou-se que Hollywood não ficava na URSS e que o muro de Berlim há nos já havia caído. Ponderou brevemente sobre a não-existência do passado e a natureza das coisas antes de tentar dormir. Dessa vez à sério. Não conseguiu.

Ana Elisa não sabia, mas havia sido seqüestrada por alienígenas. De um tipo bastante peculiar; eram alienígenas zumbis bidimensionais. Eles andam em discos voadores como qualquer extraterrestre que se preze, com uma pequena diferença: não fazem bicicletas voar. De resto, não eram burros como os seus predecessores que insitiam em cair no país mais poderoso do planeta e nem estavam em filmes onde os zumbis, ets e russos fumantes malvados e comunistas sempre morrem. Pelo contrário. Se sentiam os heróis de Guerra nas Estrelas.

Triste de se ver a cara achatada dos ets quando Ana Elisa os olhou pela primeira vez. A mocinha gargalhou sem parar. Eles eram a cara dos ursinhos carinhosos. Em um software tipo Atari. Com o joysitck quebrado.

Os ossos de Ana Elisa foram encontrados em uma vala perto da indústria de pelúcias local.

Moral da estória: não se brinca com ets. Nunca se sabe se são ou não zumbis com sede de sangue. Por mais fofinhos e bidimensionais que possam parecer.




Noite ainda.

O frio é sempre o mesmo. E agora o tempo é curto. Estique-o um pouco, enrole no pescoço, e diga adeus aos seus irmãos e suas coleções de selos do século XIX: dá no mesmo. Certeza absoluta. Quem usa o tempo como corda nunca escapa. Os exemplos vão desde Jacques Costeau ao dono da banca de jornal da esquina. Um dia os olhos não se abrem mais e saímos quietos, de mansinho, dessa para melhor. Diagnóstico: enforcado. Pelo tempo.

Aurora.

Engraçado: não sei mais dar as respostas certas. Durante todo esse tempo fui terrivelmente inocente, talvez até demais para reconhecer. E agora cansei. Me deixem dormir.

Sol a pino.

... realmente não sei mais dar as respostas certas.

Crepúsculo

Tenho uma televisão 29", dois gatos angorá, três sapatos de couro inglês, emprego estável, dois apartamentos de três quartos, três diplomas altamente conceituados, um carro novo, uma motocicleta, um berço, cinco fraldas, mamadeira e chocalho.

Noite escura.

Ainda falta ter uma vida. Amanhã faço uma para mim.

Moral:

Quem se acredita no mundo do espelho inverte a própria vida.




Acordei com a certeza de que se trata de um desconforto passageiro, potencializado por comparações estúpidas do meu temperamento ao de meu pai - tecidas, é claro, pela senhora sua esposa minha própria mãe - e uma leve indisposição causada pelo gosto de algumas noites mal-dormidas e lasagna. Pudera; hoje os sinas de que o pior está por vir são cada vez mais exatos. Primeiramente, para provar a seriedade do meu discurso, não o marcarei por comentários que pouco efeito teriam além de suscitar um leve sorriso amarelo no rosto do leitor. Enumerarei, não em ordem de importância e sim em uma cronologia um tanto dúbia os acontecimentos que ao meu ver tratam de prenúncios de um futuro cinza. A ver:

1) quebrei a unha do meu indicador esquerdo. Não consigo mais coçar os ouvidos sem sentir certo nojo agora.
2) rasguei o saco onde guardo meu lanchinho. Imperdoável.
3) a folha de alface era grande demais para o sanduíche.
4) não encontrei uma só bolsa onde coubesse o Stufen 2 e o original de um tal de Caique Botikay. 248 páginas em papael A4 pessimamente encadernadas. Maior que uma lista telefônica. Nova iorquina.
5) meus dedos estão empestinhados de patê de fígado.
6) me casaco cheira a vômito e cigarros. Culpa do show da CocoRosie.
7) cheguei atrasada ao estágio. Sim, peguei um ônibus lotado e hermeticamente fechado devido ao medo irracional das pessoas em pegarem uma chuvinha de leve. Ridículos.

Estou irritada, irritadíssima. Vou matar as fromigas na minha mesa a fim de liberar minhas frustrações. Desejo algo de patético antes que dê merda. Pra ontem.




Gritou. E bastante alto. Não que quisesse foder com sua garganta, ou estourar as cordas vocais de vez e se transformar em objeto barato de ventriloqüismo; simplesmente abriu a boca e deu um berro. Seria ainda mais primal e impactante se a palavra urrada não fossem tão prosaica, mas nem tudo nessa vida tem a dimensão dos diálogos do Chuazenéguer em Terminator. Ao sair da farmácia com o colírio no bolso gritou:

"Táxi!"

Não precisava ter gritado. Teve essa certeza estúpida tarde demais; um tanto trôpego, meio grogue devido ao efeito da aguinha mágica no olho, andou em direção ao carro. A cada passo dado sentiu-se permanentemente imperdoável. Pudera: enquanto apalpava a carteira no bolso de seu casaco percebia que se continuasse com essa estória de estilo de vida tipo A+ logo declararia falência. Imaginou um mundo feliz, onde o dinheiro não existe e tudo poderia ser conseguido através da retro contaminação de bactérias da fauna estomacal. Lembrou-se porém que bactérias são seres vivos, e toda forma de vida mercece ser respeitada, exatamente como havia lido em um cartaz da PETA perto do trabalho. Bobagens. Havia coisas maiores no mundo, como a chuva, que caía pesada. Na verdade, a chuva só existia nas costas dos que andavam em direção ao norte e no peito dos que seguiam para o sul. Os que viam do leste para o oeste e vice-versa deveriam continuuar secos, concluiu. Traçou uma tangente bastante exata e entrou no táxi sem se molhar.

Não pensou na quantidade absurda de coisas que pensara desde que saíra do trabalho. No máximo esforçou-se para não quantificar, quanto mais qualificar, o que se passa pela cabeça, e distraiu-se com a penosa tarefa de sentar-se confortavelmente em um Palio apertado. Meias, calças, casaco: cascas em cima da casca. Nunca mais usaria suéters de lã em dias de chuvas. Não prometeu nada porém. Olhos bastante abertos mas não muito atentos percebeu que o motorista era um tanto efeminado.

"Pra onde?"

Não poderia ser uma mulher. Um pomo-de-adão do tamanho do seu pulso, ora essa. Duvidou um pouco das virtudes dos travestis como motoristas de táxi; afinal, mulher no volante perigo constante. Aprendeu na escola a respeitar todas as manifestações, mesmo que individuais, dessa aclamada diversidade que ronda o planeta. Ainda com medo de ser seqüestrado respondeu:

"Botafogo."

Eram três horas da tarde e ninguém ainda havia almoçado naquela cidade.




Não sei cuidar bem dos meus stalkers. E olha que não são poucos. A maioria não me conhece; mesmo os que pensam que sabem quem eu sou não me viram mais do que uma hora, talvez menos, no conjunto de toda sua vida. Gostaria de me lembrar quem eles são e talvez sair em busca de informações pelo orkut, google, perfil do blogspot... mas eu sempre acabo me esquecendo. Fato: nenhum stalker é misterioso o suficente para abalar minha sanidade. Com raras exceções (que só confirmam a regra).

Também sou, em parte, uma stalker. Claro, vou com a cara e com a coragem. Raramente deixo de assinar meu nome por onde quer que eu passe, principalmente em listas de chamada e abaixo assinados em defesa dos pingüins de Cubatão. Mas o que é o meu nome em comparação com tudo que eu represento? Quero dizer: tudo o que eu sou. Sou partidária da idéia que existir, ser e viver são conceitos completamente diferentes, e necessariamente exclusórios. Ser não é uma "evolução" de existir, bem como viver não é nenhum superlativo de sensações. Meu nome não quer dizer nada, enfim, no conjunto do meu próprio "eu". Será que isso me torna tão stalker quanto a média?

Creio que em se tratando de observar a vida alheia guardo ainda alguns (poucos) pudores. Não tenho no meu orkut, por exemplo, aquele mecanismo que permite que você veja e seja visto toda vez que entrar em profiles alheios. Possuo também informações suficientes na minha página principal para ser identificada como amiga de fulano, fã de beltrano, aluna de cicrano... algumas são bastante interessantes quando se trata de "conhecer" um stalker muito do ardiloso: telefones, soulseek, msn, e-mail, blógue 1 e blógue 2. É pouco?

O problema é que esse negócio de stalkear gera um ciclo sem fim. Você logo vira um stalker dos seus stalkers e quando se dá conta já é tarde demais para assumir que tal pessoa ainda é um "estranho" para você. São seus amiguinhos virtuais; aqueles mesmos que mesmo sabendo que são de carne e osso o convívio de verdade só acontece em frente ao monitor da LG.

Mas foda-se esse negócio de vida real. Aqui o que vale é xeretar a vida alheia. Ou melhor, o que o outro manifesta em letrinhas. Stalkers, juro que um dia vou cuidar bem de vocês. Só me dêem tempo para me esquecer de stalkear a mim mesma. E olha, isso não é nada fácil.